A coleção que nunca acaba
Há coleções que um dia chegam ao fim.
Quem coleciona figurinhas sabe disso.
Preenche o último espaço do álbum, olha para a página completa e sente aquela
mistura de alegria e saudade. Acabou.
Com carros antigos também é possível
imaginar um limite. Um dia, talvez, você consiga encontrar aquele modelo que
faltava, restaurá-lo e colocá-lo ao lado dos outros. Pronto: coleção completa.
Até as coleções de itens de uma
promoção têm prazo para terminar. A promoção acaba, os itens desaparecem e,
depois de algum esforço, podemos dizer: consegui todos.
Mas existe uma coleção que parece ter
feito um pacto com a eternidade.
A minha.
Coleciono O Pequeno Príncipe.
E aí começa o problema.
Porque nunca aparece a última peça.
Quando penso que já tenho uma boa
quantidade, descubro uma nova edição. Depois aparece uma edição em outro
idioma. Ou em um dialeto que eu nem sabia que existia. Surge uma nova tradução,
uma adaptação, uma edição ilustrada, um livro sobre o livro, um ensaio, uma
interpretação diferente da obra.
E lá vou eu novamente.
É quase como se Antoine de
Saint-Exupéry tivesse deixado uma pequena raposa escondida em cada canto do
mundo, esperando que eu a encontrasse.
O problema seguinte é o dinheiro.
Porque livros custam dinheiro.
Nesse quesito, porém, descobri uma
coisa maravilhosa: tenho amigos que viajam.
E amigo que viaja e conhece minha
coleção sabe que não pode voltar para casa sem olhar uma livraria pelo caminho.
Às vezes recebo uma mensagem:
— José Marcos, encontrei um Pequeno
Príncipe aqui. Você já tem?
A pergunta é quase uma formalidade.
Quase sempre a resposta é:
— Não tenho.
E, se tenho, invento uma razão para
dizer que aquele é diferente.
Porque, afinal, é diferente.
É outra edição.
Outro idioma.
Outra capa.
Outro país.
Outro momento da história daquele
pequeno livro que continua viajando pelo mundo.
E chegamos à questão do espaço.
Essa é mais complicada.
Minha casa está, pouco a pouco,
deixando de ser apenas uma casa.
Está virando biblioteca.
As estantes já não parecem
suficientes. Os livros aparecem em lugares onde antes havia espaço. Eles se
multiplicam silenciosamente, como se tivessem aprendido com o próprio Pequeno
Príncipe que as coisas importantes nem sempre obedecem às regras do tamanho.
Minha coleção já não ocupa apenas
prateleiras.
Ocupa paredes, cantos, lembranças e
histórias.
Cada exemplar tem alguma coisa para
contar.
Alguns vieram de viagens de amigos.
Outros chegaram pelas mãos de autores. Outros foram descobertos depois de muita
procura. Alguns me fazem lembrar de uma pessoa, de um lugar ou de um
determinado momento da vida.
Por isso, comecei agora uma nova
tentativa.
Estou procurando as editoras
brasileiras que publicam O Pequeno Príncipe, suas adaptações, estudos e obras
relacionadas àquele pequeno personagem de cabelos dourados.
Quero convidá-las a fazer parte da
minha coleção.
A proposta é simples: que me enviem
os exemplares que publicam e, em contrapartida, eu divulgo seus trabalhos nas
minhas redes sociais, especialmente no Instagram e no Facebook.
Até agora, confesso, a resposta não
foi exatamente como eu esperava.
Mas colecionador aprende cedo a ter
paciência.
E algumas surpresas já aconteceram.
Autores que conhecem meu trabalho
começaram a me apoiar. Alguns enviaram exemplares de seus livros. E cada livro
que chega traz consigo algo muito maior do que algumas páginas impressas.
Traz um gesto.
Uma confiança.
Uma amizade.
Talvez seja justamente isso que eu
mais goste nesta coleção.
No começo, eu imaginava que estava
colecionando livros.
Hoje percebo que não.
Estou colecionando encontros.
Coleciono países que nunca visitei,
idiomas que talvez nunca consiga falar, histórias que ainda não li e pessoas
que, de alguma maneira, atravessaram o caminho da minha coleção.
Por isso, quando alguém me pergunta:
— Quantos livros você ainda precisa
para completar sua coleção?
Eu sorrio.
Porque sei que não existe resposta.
Enquanto houver uma nova edição, uma
nova tradução, um novo idioma, uma nova adaptação ou alguém disposto a enxergar
O Pequeno Príncipe com outros olhos, haverá um livro que ainda não tenho.
E talvez seja justamente essa a
beleza.
Minha coleção nunca estará completa.
E, sinceramente?
Espero que nunca esteja.









.png)




.png)
.png)