sexta-feira, 10 de julho de 2026
sábado, 13 de junho de 2026
Antoine
Jean-Baptiste Marie Roger de Saint-Exupéry
No dia
29 de junho de 1900, em Lyon, na França, nascia Antoine Jean-Baptiste Marie
Roger de Saint-Exupéry. Filho de uma família aristocrática, era descendente de
antiga linhagem francesa. Seu pai, Jean de Saint-Exupéry, trabalhava como
inspetor de seguros, e sua mãe, Marie Boyer de Fonscolombe (1875–1972), era uma
mulher culta e uma pintora de grande talento.
Antoine
perdeu o pai ainda muito pequeno e foi criado com muito amor pela mãe. Viveu
parte da infância entre Lyon e a grande propriedade familiar de
Saint-Maurice-de-Rémens, uma elegante casa de estilo clássico cercada por um
vasto parque arborizado. Ali desfrutou de uma infância feliz, ainda que um
tanto protegida — um verdadeiro pequeno príncipe.
Entre os
companheiros de brincadeiras, destacava-se pela imaginação fértil, pelo
espírito aventureiro e pela necessidade constante de explorar o desconhecido.
Estudou, juntamente com o irmão François, no colégio
Notre-Dame-de-Sainte-Croix, dirigido pelos padres jesuítas.
Um ponto
decisivo de sua vida ocorreu em 1921, quando ingressou no serviço militar e foi
enviado para Estrasburgo, onde iniciou a formação como piloto. Em 9 de julho
daquele ano realizou seu primeiro voo solo, a bordo de um Sopwith F-CTEE.
Obteve o brevê de piloto em 1922 e retornou a Paris, decidido a escrever. Foi,
porém, um período difícil. Trabalhou em diversas atividades, entre elas como
contador e vendedor de automóveis.
Em 1929,
Saint-Exupéry transferiu-se para a América do Sul, integrando as rotas do
correio aéreo que atravessavam os Andes. Foi o célebre período da aviação
postal, experiência que marcaria profundamente sua obra literária.
Após a
invasão da França durante a Segunda Guerra Mundial, voltou ao serviço militar.
Apesar dos problemas de saúde e da idade considerada avançada para missões de
combate, insistiu em voar e participou de diversas operações de reconhecimento.
Recebeu, entre outras honrarias, a Cruz de Guerra.
Foi
chamado de "herói romântico": um homem distante, quase irreal, seja
por sua vida aventureira, seja pela forma misteriosa de sua morte. Em 31 de
julho de 1944, aos quarenta e quatro anos, partiu para sua nona e última
missão, com o objetivo de sobrevoar a região de Grenoble e Annecy.
Nunca
regressou. Durante décadas, foi considerado desaparecido. Diversas hipóteses
foram levantadas para explicar o ocorrido. Uma das mais poéticas dizia que, ao
desviar-se da rota estabelecida para contemplar uma última vez os lugares de
sua infância, teria sofrido uma pane e caído no mar enquanto tentava escapar
dos aviões alemães. Hoje se sabe que os destroços de seu avião foram
encontrados no Mar Mediterrâneo, mas o mistério sobre os momentos finais do
escritor permanece.
Saint-Exupéry
foi um idealista, um piloto corajoso e um homem de paixões intensas, cuja vida
sentimental foi marcada por inquietações e desencontros. Contudo, o que
permaneceu extraordinário não foi apenas sua existência aventurosa nem o enigma
de sua morte, mas a literatura que produziu. Para ele, viver e escrever eram
realidades inseparáveis. Costumava afirmar que "é necessário viver para
poder escrever". De fato, grande parte de sua obra possui forte caráter
autobiográfico, transformando experiências reais em narrativas de profunda
dimensão humana e poética.
Talvez
esse desfecho misterioso tenha contribuído para transformar toda a sua vida em
romance.
Seu
livro mais belo é, sem dúvida, O Pequeno Príncipe, a delicada fábula dedicada
ao amigo Léon Werth. Não ao amigo adulto, mas ao menino que ele um dia fora.
Uma dedicatória retroativa que faz do livro uma celebração da infância que
continua a habitar cada idade da vida.
Bibliografia
O
Aviador (1926) — L'Aviateur;
Correio
do Sul (1929) — Courrier Sud;
Voo
Noturno (1931) — Vol de nuit;
Terra
dos Homens (1939) — Terre des hommes;
Piloto
de Guerra (1942) — Pilote de guerre;
Carta a
um Refém (1943) — Lettre à un otage;
O
Pequeno Príncipe (1943) — Le Petit Prince;
A
Cidadela (1948, publicação póstuma) — La Citadelle.
sexta-feira, 12 de junho de 2026
O
Pequeno Príncipe no país do futebol
No
começo, talvez pensasse que se trata de um ritual muito sério dos adultos.
Afinal, os adultos gostam de números: quantos gols, quantos pontos, quantos
títulos, quantos minutos faltam para o fim do jogo.
Mas
bastaria observar um pouco mais para perceber que, no Brasil, o futebol é uma
brincadeira que se recusa a envelhecer.
Às
vezes, a bola rebola junto com o corpo do jogador que dribla um, dois ou três
adversários antes do gol. Então acontece o milagre: o estádio sacode, a sala de
casa vira arquibancada, o ônibus inteiro se transforma em torcida. O grito
explode ao mesmo tempo em milhares de gargantas:
— Gol!
O
Pequeno Príncipe talvez sorrisse. Veria meninos jogando na rua com traves
improvisadas por chinelos, pais ensinando filhos a chutar com o lado do pé,
avós encostando o radinho no ouvido para ouvir uma narração que transforma cada
lance em epopeia.
A raposa
lhe havia ensinado que somos responsáveis por aquilo que cativamos. Talvez seja
por isso que tanta gente sofra e comemore por um time de futebol. Não é apenas
a vitória que está em jogo. São as lembranças. O primeiro jogo no estádio. A
camisa herdada do pai. A fotografia amarelada de um antigo craque. A infância
inteira correndo atrás de uma bola.
No fim
da partida, segurando a bola nas mãos e olhando para aquele povo capaz de
transformar um simples jogo numa celebração coletiva, o Pequeno Príncipe diria,
com espanto e alegria:
—
Brasil! Brasil!
E
descobriria que, no país do futebol, o essencial nem sempre é invisível aos
olhos. Às vezes, ele rola pelo gramado, redondo como um pequeno planeta,
convidando os adultos a brincar mais uma vez.
quarta-feira, 10 de junho de 2026
A morte no
Pequeno Príncipe
“Não
gritou. Tombou devagarinho como tomba uma árvore. Nem fez sequer barulho, por
causa da areia.”
Quando li O
Pequeno Príncipe na infância / adolescência, aquela cena não era morte. Era
partida. Era retorno. Era a viagem de volta para sua rosa. A serpente não era
ameaça. Era ponte.
Mas a gente
cresce. E crescer pesa. Hoje, quando releio o Pequeno Príncipe, a pergunta me
atravessa: Ele procurou a morte? Quando perguntou à serpente se o veneno era
forte o suficiente… ele já tinha decidido? Ou será que não era desejo de morrer,
mas necessidade de voltar?
Talvez o
adulto veja suicídio onde a criança via transcendência. Talvez a infância ainda
saiba algo que esquecemos: que certos retornos exigem deixar o corpo para trás.
O Pequeno
Príncipe não gritou.
E o
silêncio daquela queda continua ecoando dentro de nós. Porque, no fundo, a
pergunta não é sobre ele. É sobre o que fazemos com nossas ausências.
terça-feira, 9 de junho de 2026
Entre a memória e a
eternidade: Saint-Exupéry
Neste post, convido os
leitores a percorrer algumas páginas da vida e da memória de Antoine de
Saint-Exupéry.
Começamos pela sua
certidão de nascimento, registrada em 29 de junho de 1900, marco inicial da
trajetória daquele que viria a encantar gerações com "O Pequeno
Príncipe".
Em seguida, apresento um
raro convite para a missa celebrada em Nova Iorque, em 25 de novembro de 1945,
pela alma do comandante Antoine de Saint-Exupéry, desaparecido em missão sobre
a França em 31 de julho de 1944. O documento, assinado por sua viúva, Consuelo
de Saint-Exupéry, revela a emoção e a esperança que ainda cercavam sua memória
pouco mais de um ano após seu desaparecimento.
A terceira parte é
dedicada a Consuelo, musa, companheira e inspiração de tantas páginas da obra
exuperiana. Nela vemos seu retrato, pintado em Nova Iorque, em 1942, pelo
artista americano Emlen Etting, além de um delicado desenho do Pequeno Príncipe
realizado por ela própria.
Por fim, compartilho uma
oração escrita por Saint-Exupéry, em tradução que realizei para o português.
Nela encontramos não apenas o escritor e aviador, mas também o homem que
buscava sentido, fraternidade e transcendência em meio às inquietações do seu tempo.
Uma pequena viagem por
documentos, imagens e palavras que ajudam a compreender melhor o homem por trás
do mito.
Cada doido com a sua
mania
A minha mania é
colecionar o livro O Pequeno Príncipe.
Quando decidi reunir
exemplares da obra em diferentes línguas e dialetos, não imaginava a dimensão
que essa paixão poderia alcançar. No início, eu comprava livros dos países que
visitava. Mais tarde, com o advento da internet, descobri que não era o único
“doido” com essa mania. Havia muitos outros colecionadores no Brasil e em
diversos países.
A partir daí, surgiram
amizades que atravessaram fronteiras. Nós, colecionadores brasileiros, passamos
a trocar experiências, informações e incentivos para continuar ampliando nossas
coleções. Participamos de grupos dedicados à obra, onde pessoas de diferentes
culturas compartilham a mesma paixão pelo pequeno viajante dos asteroides.
Minha coleção cresceu
graças a essas amizades. Muitos colecionadores estrangeiros me enviam
exemplares publicados em seus países, e eu retribuo enviando edições
brasileiras. Também conto com a ajuda de amigos viajantes, que costumam trazer
livros dos lugares por onde passam.
Assim, além dos livros,
ganhei algo ainda mais valioso: os amigos da minha coleção.
Infelizmente, manter uma
coleção internacional tem se tornado cada vez mais difícil. Os livros estão
mais caros, os custos de importação aumentaram e a alta do dólar pesa bastante
no orçamento.
Por isso, se você desejar
tornar-se um amigo da minha coleção, poderá contribuir de duas maneiras:
enviando um exemplar de O Pequeno Príncipe de alguma edição diferente ou
ajudando financeiramente na aquisição de novos lançamentos.
Toda colaboração será
recebida com gratidão e carinho. Afinal, como nos ensinou Saint-Exupéry, “é o
tempo que dedicamos a algo que o torna especial”.
Muito obrigado!
Os livros que nos fazem
viajar
O Pequeno Príncipe,
depois da decepção com sua rosa, resolveu visitar os asteroides próximos ao seu
para ocupar-se e instruir-se. Para essa viagem, creio que utilizou a migração
de pássaros selvagens para evadir-se de seu pequeno mundo. A ilustração dessa
cena no livro é lindíssima.
Aproveitando a ideia de
Antoine de Saint-Exupéry, tomei a ousadia de reinventar essa imagem. Em vez de
pássaros, imaginei o Pequeno Príncipe viajando sobre livros, companheiros
silenciosos que também nos levam para longe da realidade cotidiana.
Afinal, os livros possuem
a mesma magia dos pássaros migratórios: transportam-nos para outros mundos,
apresentam-nos novas paisagens, novos pensamentos e novas vidas. Quando
desejamos evadir-nos da realidade, não precisamos necessariamente de asas.
Muitas vezes, basta abrir um livro.
Assim, o Pequeno Príncipe
parte novamente em sua jornada, não carregado pelo voo dos pássaros, mas pela
força das histórias. Sobre as páginas de Os Miseráveis, A Divina Comédia e
tantos outros clássicos, ele continua sua eterna busca por atividade, conhecimento
e encantamento.
Porque há viagens que se
fazem com os pés, outras com asas, e algumas das mais extraordinárias com
livros.
Capítulo
XXI – A Raposa e o Segredo da Amizade
— “Vem
brincar comigo. Estou tão triste.”
O
convite feito pelo principezinho à raposa parece simples, mas inaugura uma das
mais profundas reflexões sobre a amizade na literatura.
A
resposta da raposa é uma negativa:
— “Não
posso brincar contigo. Não me cativaram ainda.”
É
justamente dessa recusa que nasce o ensinamento. A raposa apresenta ao pequeno
príncipe a importância dos laços construídos com paciência, presença e
dedicação. Ninguém se torna amigo de alguém instantaneamente. É preciso tempo
para criar vínculos, para transformar o outro em alguém único no mundo.
Um
detalhe curioso do capítulo é que a raposa aparece sob uma macieira. Na
tradição bíblica, a maçã costuma ser associada à árvore do conhecimento. Não
deixa de ser simbólico que seja ali, naquele cenário, que o pequeno príncipe
receba uma das maiores lições de sua viagem.
Ao
compreender o significado de “cativar”, ele descobre que os laços criam
responsabilidades. Por isso, a raposa lhe revela uma das frases mais marcantes
do livro:
"Tu
te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas."
Mais do
que uma lição sobre amizade, essa frase fala de amor, cuidado e compromisso. As
pessoas que entram em nossa vida e que conquistam nosso coração deixam de ser
apenas mais uma entre tantas. Tornam-se únicas. E a partir desse momento
passamos a carregar, com alegria e responsabilidade, uma parte de sua história
junto da nossa.
É um dos
capítulos em que Antoine de Saint-Exupéry concentra, em poucas páginas, a
essência de toda a obra: a descoberta de que o verdadeiro valor das coisas
nasce dos laços que construímos.
Mais uma
curiosidade sobre O Pequeno Príncipe
Quando
se diz que a literatura liberta, normalmente pensamos no poder dos livros de
ampliar horizontes e transformar vidas. Em alguns casos, porém, ela também
chega aos tribunais.
No
Brasil, a leitura pode contribuir para a redução da pena de pessoas privadas de
liberdade. Mas uma notícia vinda da Argentina mostrou uma situação curiosa: a
leitura de O Pequeno Príncipe transformou-se em uma determinação judicial.
A juíza
Carolina Macarrein, titular do Juizado de Família, Infância e Adolescência nº 4
de Corrientes, determinou que um pai lesse a obra de Antoine de Saint-Exupéry
para refletir sobre a importância da empatia e da responsabilidade paterna.
Além de negar o pedido apresentado pelo homem, a magistrada marcou uma nova
audiência para que ele relatasse as conclusões que tirou da leitura.
O pai
havia solicitado a interrupção da pensão alimentícia destinada à filha de 21
anos, alegando que o Certificado Único de Deficiência da jovem estava vencido.
A juíza entendeu que o argumento demonstrava uma preocupante falta de empatia
em relação aos filhos, um deles com deficiência e outro enfrentando problemas
de saúde.
Em
entrevista à jornalista María Mercedes Vázquez, da rádio Corrientes no ar,
Macarrein classificou as declarações do pai como lamentáveis:
“Se este
senhor diz isso a um juiz, o que dirá à pobre mulher e aos seus filhos? Não é
assim que a coisa funciona; essa conduta é reprovável.”
Para a
magistrada, a leitura de O Pequeno Príncipe poderia ajudá-lo a compreender
melhor o significado da empatia.
Na
decisão, ela destacou que ser pai não se resume ao cumprimento de uma obrigação
financeira. A paternidade também envolve presença, compreensão, cuidado e apoio
emocional, sobretudo quando os filhos se encontram em situação de
vulnerabilidade.
Embora o
livro não trate diretamente da relação entre pais e filhos, seus ensinamentos
abordam valores universais como amor, amizade, responsabilidade e respeito ao
próximo. Por isso, a juíza considerou que a obra poderia servir como
instrumento de reflexão.
Segundo
ela:
“Neste
caso, entendi que as obrigações parentais não se cumprem apenas com dinheiro,
mas também com amor, compreensão e presença. Por isso determinei que o pai leia
o livro: para que se lembre de que ‘o essencial é invisível aos olhos’ e que o
essencial para seus filhos é seu cuidado e afeto.”
Na
semana seguinte, o homem deveria retornar ao tribunal para comentar o que havia
aprendido com a leitura.
Curiosamente,
aquilo que para milhões de leitores representa um convite à imaginação e à
sensibilidade tornou-se, nesse caso, uma tarefa determinada pela Justiça.
Talvez porque poucos livros expressem tão bem a ideia de responsabilidade
quanto a famosa lição da raposa ao Pequeno Príncipe:
"Tu
te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas."
Uma
frase que continua atravessando gerações — e, pelo visto, até mesmo processos
judiciais.
O
Pequeno Príncipe: o livro das misses
Nos anos
1950 e 1960, era impressionante a audiência que o concurso Miss Brasil
alcançava. A antiga TV Tupi transmitia o evento ao vivo para todo o país. As
candidatas desfilavam em traje típico, traje de gala e maiô — este último, sem
dúvida, o momento mais aguardado pelo público.
A
vencedora estampava a capa da revista O Cruzeiro e passava a ocupar lugar de
destaque no imaginário dos brasileiros. Algumas misses ficaram para sempre na
memória popular como símbolos da beleza feminina do país. Lembro-me de nomes
como Martha Rocha, Ieda Maria Vargas, Vera Fischer e Stael Abelha.
Além dos
desfiles, havia também a entrevista, na qual diversas perguntas eram dirigidas
às candidatas. Entre elas, uma era quase obrigatória: qual o livro que haviam
lido e de que mais gostaram.
Curiosamente,
o título mais citado era O Pequeno Príncipe. Por isso, durante muito tempo,
quando alguém mencionava O Pequeno Príncipe, era comum ouvir a expressão: “o
livro das misses”.
Talvez
essa associação tenha contribuído para ampliar ainda mais a popularidade da
obra entre os leitores brasileiros, transformando-a em um verdadeiro clássico
presente nas estantes, nos colégios e na memória afetiva de várias gerações.








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