segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Outra forma de contar O Pequeno Príncipe

 

Esta é uma reprodução de uma fala coloquial

Todo mundo sofre quando perde alguma pessoa querida, mas poucas pessoas vão sofrer e carregar esse bagulho do mesmo jeito que o meu mano Antoine Saint-Exupéry.

Você provavelmente já leu ou já ouviu falar da história do Pequeno Príncipe. É só um dos livros mais traduzidos e vendidos no mundo inteiro, traduzido em mais de 345 línguas.

Só que a fita é que o autor do livro, Antoine, tinha um problema. Ele nasceu numa família de playboy na França, em 1900, e foi o terceiro filho de cinco. Mas o playboyzinho não ia durar muito tempo. Isso porque, quando ele fez três anos de idade, o pai dele acabou falecendo e deixando a família numa situação financeira horrível.

E aí, de repente, os playboys tiveram que virar quebrada, porque a situação realmente ficou ruim.

E, com 17 anos de idade, ele teve que começar a cuidar do irmão dele, de 15, por conta de uma febre que ele tinha pegado, que chamava febre reumática. E é um bagulho bem sério, chegando ao ponto de o irmão dele falecer nos seus braços.

E o Antoine, nessa época, escreveu que o irmão dele não gritou nem esperneou: ele caiu suavemente, assim como uma árvore jovem cai num jardim.

Guarda essa frase na cabeça, que daqui a pouco ela vai ser importante.

Depois disso, Antoine tentou entrar para a Academia Naval duas vezes, só que ele falhou nas duas. Mas o sonho dele, de verdade, era ser piloto de avião. Desde os 12 anos de idade, ele era encantado com essa parada. E isso foi bem na época em que os Wright Brothers estavam, assim, dominando o voo motorizado.

E ele ficou obcecado com essa parada de voo. Ele queria fazer parte da aeronáutica francesa.

Só que a fita é que o Antoine era loucão na hora de pilotar os bagulhos. Ele gostava de ficar mandando umas manobras radicais que, volta e meia, acabavam em acidentes bem graves com os aviões, chegando ao ponto de ele quase morrer, sem contar toda a destruição que ele fez com os aviões que pilotava.

Então a Força Aérea virou para ele e falou:

— Parceiro, na moralzinha, você é da hora, você é gente fina, pá e pum, mas esse bagulho aí não dá. Você está fora.

Então ele sai da Força Aérea e começa a fazer uns voos postais, entregando cartas entre a África e a América do Sul. E foi nesse momento que ele começou a publicar livros sobre a vivência dele.

Em 1931, ele publicou o livro Voo Noturno, que meio que, sem querer, virou um best-seller do dia para a noite. Sem querer, não, porque ele fez uma obra esperando um resultado, mas ninguém esperava que o bagulho fosse ficar desse tamanho.

Nessa mesma época, ele acabou se casando com uma guria. Só que foi um casamento extremamente turbulento, cheio de problemas, e essa mulher acabou servindo de inspiração para a rosa no Pequeno Príncipe, futuramente.

Só que é aqui que o bagulho começa a ficar sinistro. Porque, se liga: mesmo com os livros dele sendo um sucesso, ele vendendo para caramba, a fita é que ele era viciado em adrenalina. O maluco não conseguia ficar em paz. O que ele queria mesmo da vida era viver uma aventura loucaça.

E, por conta disso, ele e o mecânico dele acabaram tendo um acidente grave num deserto na Líbia. Eles queriam bater o recorde de velocidade indo de Paris até Saigon e, no meio do caminho, o motor deu pane e o avião só caiu.

Agora pensa: os manos não tinham ideia de onde eles estavam, não sabiam se alguém vinha resgatá-los, e eles não tinham o que fazer. A única ração que tinham era, tipo assim, um chocolate, umas frutas e mais uns bagulhos soltos aí.

No quarto dia atravessando o deserto, os caras já estavam passando mal de alucinar, quando, por alguma sorte do destino, encontraram uma caravana de pessoas passando, que acabou salvando a vida deles, dando água para os caras.

Essa experiência acabou virando outro livro, chamado Terra dos Homens, e também uma parte dela virou inspiração para o Pequeno Príncipe, em que um aviador é forçado a pousar no deserto por conta de um problema no motor. E lá ele encontra um menino sozinho e começa a trocar ideia com esse moleque.

Depois disso, ele até resolveu dar uma calmada. Só que aí a parada ficou mais sinistra ainda. Isso porque um líder alemão de bigodinho, que vocês conhecem bem, resolveu assumir o poder e aterrorizar o mundo.

Então, quando o bigodinho resolveu invadir a França, a única solução, já que os caras ganharam essa treta, foi o Antoine fugir para a América do Norte. E foi lá, em Nova York, em 1942, que ele escreveu O Pequeno Príncipe.

Só que, mesmo sendo um dos autores mais aclamados da época, um dos caras mais zica desse rolê todo, ele escrevia por hobby, não era por paixão. O que ele gostava mesmo era de estar no ar, nos aviões, tirando uma onda. E o que ele queria mesmo era entrar no avião de guerra e pilotar contra o bigodinho.

Então ele resolveu chegar no Exército francês e falar:

— Parceiro, na moral, vocês têm que deixar eu participar. O pai está pronto, caralho!

O Exército francês virou para ele:

— Parceiro, você tem 42 anos, você é cheio de lesão, você já bateu não sei quantos aviões. Não vai dar jeito, parceiro. Não tem como você ajudar.

Só que ele encheu tanto o saco dos caras que resolveram abrir uma exceção e deixar ele fazer voos de reconhecimento. Ou seja, ele tinha que voar por terras inimigas, territórios inimigos, e ver o que estava pegando.

E ele começar a pilotar na guerra só aumentou a fama do cara. E, tipo assim, o maluco já era famoso. Chegando ao ponto de, em 1943, o livro dele ser banido na França pelo exército do bigodinho. Calma, que eu já explico o porquê dessa parada.

Mas, se liga: a fita é que, no Pequeno Príncipe, as ilustrações são tão importantes quanto a própria história. Inclusive, quem desenhou tudo foi o próprio Antoine.

Pega a visão: no livro, tanto o Pequeno Príncipe quanto o motorista de avião estão em crise. O piloto vai basicamente morrer se não conseguir consertar o avião e sair de lá. E o Pequeno Príncipe foi obrigado a sair do seu planeta natal por conta de uma treta que ele teve com a rosa.

E, antes de chegar ao planeta Terra, ele vai passando por vários asteroides, ou miniplanetas, e conhecendo personagens de lá. E cada personagem é basicamente uma falha humana.

Por exemplo: nós temos o rei que não tem nenhum súdito para governar. Nós temos um homem bonito que não tem ninguém para elogiar ele. Também temos o bebum que bebe para esquecer que está bebendo. Ou até o empresário que se diz dono de todas as estrelas que consegue ver.

E, é claro, a gente não pode esquecer do geógrafo, que supostamente sabe de tudo, só que nunca recebeu informações confiáveis de exploradores que deviam passar essas informações para ele.

O narrador dessa história é o aviador que cai no deserto. E ele só consegue escapar do seu problema por conta do sacrifício do Pequeno Príncipe.

Isso porque, antes de o Pequeno Príncipe sair do seu planeta natal, ele basicamente arrumou a casa: ele limpou os vulcões e arrancou as raízes das árvores que podiam destruir seu planeta natal.

Inclusive, foi por isso que o livro foi banido, porque essas árvores são vistas por muitas pessoas como uma alusão ao governo do bigodinho. Se você deixar a raiz se alastrar, ela vai dominar o país e vai destruí-lo por completo.

E ele viveu uma vida boa no planeta dele. Só que, por conta de um mal-entendido com a rosa, que é o único personagem feminino do livro inteiro, ele acaba indo para a Terra.

E, chegando à Terra, ele conhece uma raposa muito inteligente, que começa a conversar com ele sobre essa necessidade de nós, seres humanos, termos relacionamentos com outras pessoas. E explica para o Pequeno Príncipe a obrigação que a gente tem com aquilo que cativa. Ou seja, a gente tem obrigação em cima daquilo que quer.

Então a raposa fala para o Pequeno Príncipe, calmamente:

— A gente apenas se esqueceu dessa simples verdade. Você é eternamente responsável por aquilo que cativa. Cada um é responsável por sua própria rosa.

E é nesse momento que o Pequeno Príncipe percebe que a coisa mais valiosa dentro de um relacionamento é justamente a singularidade dele. Porque o que determina o valor de um relacionamento é tudo aquilo que você dedicou e sacrificou por ele.

A jornada do Pequeno Príncipe continua até encontrar um vendedor que vende pílulas que matam sua sede. E o Pequeno Príncipe fica curioso e fala:

— Cara, por que eu preciso de uma pílula para matar minha sede? Por que eu só não tomo um copo d’água?

E o vendedor vira para ele e fala:

— Jovem, jovem, você ainda não sabe muito bem da vida. Você tem que entender mais as coisas. Presta atenção: com a minha pílula, você vai economizar 53 minutos por dia.

E o Pequeno Príncipe fica curioso e pergunta para ele:

— Parceiro, mas o que eu vou fazer com esses 53 minutos que eu tenho a mais?

O vendedor responde para ele, todo seguro:

— Mano, você faz o que quiser. Você pode, sei lá, relaxar, você pode ler um livro.

E aí o Pequeno Príncipe olha com um olhar curioso para ele e fala:

— Cara, se eu tivesse 53 minutos a mais, sabe o que eu ia fazer? Eu acho que ia até um riacho tomar uma água, só pelo rolê.

Isso porque o Pequeno Príncipe vê alegria e felicidade nas coisas simples da vida. Para ele, economizar tempo não faz o menor sentido quando ele pode só ir lá e fazer as coisas.

Então, depois de um tempo, ele e o piloto que encontrou no deserto, algum tempo depois no livro, vão atrás de água e conseguem encontrar, o que acaba salvando a vida do piloto.

E é nesse momento que o Pequeno Príncipe decide que é hora de partir de volta para o seu planeta. Só que ele sabe muito bem que não pode voltar para o planeta dele com seu corpo físico. Então ele negocia sua própria morte e deixa uma cobra morder ele.

E, quando o piloto volta para agradecer ao menino, ele simplesmente não está mais lá.

Agora vamos voltar para aquela frase do começo e vamos ver se você estava prestando atenção. Sabe aquele bagulho que eu falei, que ele escreveu sobre o irmão dele? Ele usou essa mesma frase para descrever a morte do Pequeno Príncipe: que ele não gritou ao cair, ele caiu suavemente como uma árvore jovem num quintal.

E é aí que vem uma das frases mais lindas do livro inteiro e, se pá, da humanidade:

— Um dia, quando a sua tristeza finalmente se acalmar, porque o tempo suaviza todas as dores, você ficará feliz de ter me conhecido.

O livro mostra que não existe nenhum caminho simples para os problemas da vida. Ele aponta justamente para essa tristeza de muitas pessoas que vivem uma vida que não tem sentido.

Tem uma hora em que a raposa vira para o Pequeno Príncipe e fala para ele:

— Ah, as pessoas não têm tempo de entender qualquer coisa que vale a pena. Elas compram tudo em lojas. Por isso que elas não têm amigos, porque não dá para comprar amigo dentro de uma loja.

Esse livro é muito importante, muito impactante, porque faz a gente questionar uma coisa bem simples: será que, na nossa correria de ser adulto e otimizar nosso tempo para tudo, a gente perdeu a essência do que é viver?

Então, no dia 31 de julho de 1944, o Antoine vai em mais uma missão. E, infelizmente, o avião dele caiu em alto-mar.

E, assim como o corpo do Pequeno Príncipe, que nunca mais foi visto, o corpo do Antoine também nunca foi encontrado.

Nas palavras do Pequeno Príncipe:

— Aqui está o meu segredo. O meu segredo é muito simples: só com o coração que a gente consegue enxergar direito. Porque tudo que é essencial para a vida é invisível para os olhos.

E, como sempre, eu sou o Fred Roman. E, se você gostou do vídeo, não esquece de seguir nós. Tamo junto!

 

 

terça-feira, 8 de setembro de 2026




A intertextualidade nas charges do cartunista Benett

 

A série de tiras do cartunista Alberto Benett explora a intertextualidade ao aproximar o universo poético e lúdico de O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, do absurdo, da melancolia e do niilismo presentes em outros clássicos da literatura, das artes e da cultura popular.

 

O Pequeno Príncipe e a ilusão das formas

 

Benett retoma a célebre ilustração da jiboia que engoliu um elefante — desenho que os adultos interpretavam apenas como um chapéu — e amplia seu significado. Ao colocar vários animais abrigados uns dentro dos outros, o cartunista sugere que a realidade pode possuir infinitas camadas e que aquilo que vemos nem sempre corresponde ao que realmente existe.

 

A tira dialoga, assim, com uma das ideias centrais de O Pequeno Príncipe: “O essencial é invisível aos olhos.” O humor nasce justamente da distância entre a aparência e a realidade.

 

A Metamorfose, de Franz Kafka

 

Ao colocar a jiboia na cama de Gregor Samsa, às cinco horas da manhã, Benett recria a cena inicial de A Metamorfose, de Franz Kafka. Na obra original, Gregor desperta transformado em um inseto monstruoso. Na tira, porém, a transformação é substituída pela presença da cobra de O Pequeno Príncipe.

 

O encontro dessas duas narrativas produz um humor absurdo, no qual a angústia existencial e a opressão do trabalho, presentes na obra de Kafka, misturam-se ao surrealismo da fábula de Saint-Exupéry.

 

O Corcunda de Notre-Dame

 

No encontro entre Quasimodo e a jiboia, Benett explora a semelhança visual entre a corcunda do personagem de Victor Hugo e o relevo formado pelo elefante no interior da serpente.

 

A pergunta ingênua de Quasimodo — “Você também comeu um elefante?” — estabelece uma ponte cômica entre sua aparência física e o desenho que os adultos confundiam com um chapéu. A graça nasce do reconhecimento de uma forma semelhante, embora produzida por circunstâncias completamente diferentes.

 

O pinguim niilista

 

Em outra releitura do asteroide B-612, a raposa, que no livro ensina ao Pequeno Príncipe o significado do afeto, da amizade e da responsabilidade, é substituída pelo chamado “pinguim niilista”, popularizado por uma cena do documentário de Werner Herzog.

 

O tom poético da narrativa original dá lugar ao niilismo. A procura por vínculos afetivos é confrontada com a solidão e com a aparente falta de sentido da existência. Benett transforma, dessa maneira, a delicadeza da obra de Saint-Exupéry em uma reflexão melancólica sobre a condição humana.

 

O Pequeno Príncipe e Maquiavel

 

A imagem do Pequeno Príncipe lendo O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, cria um jogo imediato entre os títulos das duas obras. O menino que representa a pureza, a sensibilidade e o olhar da infância aparece diante de um tratado associado ao poder, à estratégia e ao comportamento dos governantes.

 

A tira também nos remete ao episódio de um julgamento no qual um advogado confundiu as autorias das duas obras. A troca transforma Antoine de Saint-Exupéry e Nicolau Maquiavel em personagens involuntários de uma situação quase tão absurda quanto as próprias charges de Benett.

 

Magritte e “A traição das imagens”

 

Outra tira estabelece um diálogo com A traição das imagens (La Trahison des images), obra pintada por René Magritte em 1929. O quadro apresenta um cachimbo acompanhado da frase: “Ceci n’est pas une pipe” — “Isto não é um cachimbo”.

 

Magritte questiona a relação entre a realidade e sua representação: a figura não é um cachimbo verdadeiro, mas apenas a imagem de um cachimbo.

 

Ao lado do quadro, Benett coloca a silhueta clássica da jiboia que engoliu um elefante. Para os adultos de O Pequeno Príncipe, aquela forma representava apenas um chapéu. A jiboia, então, olha para a pintura e declara:

 

— Eu te entendo. Também não sou o que as pessoas pensam que sou.

 

Benett aproxima as duas obras por meio de uma questão comum: a diferença entre aquilo que uma imagem mostra e aquilo que o observador acredita estar vendo. Tanto o cachimbo de Magritte quanto a jiboia de Saint-Exupéry desafiam a interpretação imediata e superficial.

 

Alice no País das Maravilhas

 

A presença do Coelho Branco, personagem de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, acrescenta outra camada de intertextualidade à cena. Colocado como observador em uma galeria de arte, o personagem reforça o ambiente de estranhamento, curiosidade e absurdo.

 

Assim como Alice atravessa um mundo no qual a lógica convencional deixa de funcionar, o leitor das charges de Benett é convidado a abandonar as interpretações mais óbvias e a enxergar além das aparências.

 

A jiboia e o disfarce conveniente

 

Em outra situação, Benett brinca com a própria metáfora criada por Saint-Exupéry. No livro, a afirmação “é apenas um chapéu” representa a visão limitada dos adultos, incapazes de perceber a imaginação contida no desenho.

 

Na charge, entretanto, a jiboia aproveita essa interpretação equivocada como um disfarce conveniente. Diante do maior predador, ela tenta esconder que devorou seu filhote, afirmando ser apenas um chapéu. A antiga incompreensão dos adultos transforma-se, então, em estratégia de sobrevivência.

 

Considerações finais

 

Por meio do humor gráfico e da combinação de referências, Benett transporta O Pequeno Príncipe para outros universos literários, artísticos e culturais. Kafka, Victor Hugo, Maquiavel, Magritte, Lewis Carroll e Werner Herzog passam a dialogar com Saint-Exupéry em encontros improváveis, mas repletos de significado.

 

Suas charges preservam elementos reconhecíveis da obra original, ao mesmo tempo que transformam sua poesia e delicadeza em comentários bem-humorados, absurdos e, por vezes, melancólicos sobre as ilusões, os julgamentos superficiais e as limitações do olhar adulto. Em Benett, aquilo que parece apenas uma brincadeira visual revela novas camadas de interpretação — porque uma imagem, como uma pessoa ou uma história, raramente é apenas aquilo que aparenta ser.

sábado, 15 de agosto de 2026

 


 

A coleção que nunca acaba

Há coleções que um dia chegam ao fim.

Quem coleciona figurinhas sabe disso. Preenche o último espaço do álbum, olha para a página completa e sente aquela mistura de alegria e saudade. Acabou.

Com carros antigos também é possível imaginar um limite. Um dia, talvez, você consiga encontrar aquele modelo que faltava, restaurá-lo e colocá-lo ao lado dos outros. Pronto: coleção completa.

Até as coleções de itens de uma promoção têm prazo para terminar. A promoção acaba, os itens desaparecem e, depois de algum esforço, podemos dizer: consegui todos.

Mas existe uma coleção que parece ter feito um pacto com a eternidade.

A minha.

Coleciono O Pequeno Príncipe.

E aí começa o problema.

Porque nunca aparece a última peça.

Quando penso que já tenho uma boa quantidade, descubro uma nova edição. Depois aparece uma edição em outro idioma. Ou em um dialeto que eu nem sabia que existia. Surge uma nova tradução, uma adaptação, uma edição ilustrada, um livro sobre o livro, um ensaio, uma interpretação diferente da obra.

 

E lá vou eu novamente.

É quase como se Antoine de Saint-Exupéry tivesse deixado uma pequena raposa escondida em cada canto do mundo, esperando que eu a encontrasse.

O problema seguinte é o dinheiro.

Porque livros custam dinheiro.

Nesse quesito, porém, descobri uma coisa maravilhosa: tenho amigos que viajam.

E amigo que viaja e conhece minha coleção sabe que não pode voltar para casa sem olhar uma livraria pelo caminho.

Às vezes recebo uma mensagem:

— José Marcos, encontrei um Pequeno Príncipe aqui. Você já tem?

A pergunta é quase uma formalidade.

Quase sempre a resposta é:

— Não tenho.

E, se tenho, invento uma razão para dizer que aquele é diferente.

Porque, afinal, é diferente.

É outra edição.

Outro idioma.

Outra capa.

Outro país.

Outro momento da história daquele pequeno livro que continua viajando pelo mundo.

E chegamos à questão do espaço.

Essa é mais complicada.

Minha casa está, pouco a pouco, deixando de ser apenas uma casa.

Está virando biblioteca.

As estantes já não parecem suficientes. Os livros aparecem em lugares onde antes havia espaço. Eles se multiplicam silenciosamente, como se tivessem aprendido com o próprio Pequeno Príncipe que as coisas importantes nem sempre obedecem às regras do tamanho.

Minha coleção já não ocupa apenas prateleiras.

Ocupa paredes, cantos, lembranças e histórias.

Cada exemplar tem alguma coisa para contar.

Alguns vieram de viagens de amigos. Outros chegaram pelas mãos de autores. Outros foram descobertos depois de muita procura. Alguns me fazem lembrar de uma pessoa, de um lugar ou de um determinado momento da vida.

Por isso, comecei agora uma nova tentativa.

Estou procurando as editoras brasileiras que publicam O Pequeno Príncipe, suas adaptações, estudos e obras relacionadas àquele pequeno personagem de cabelos dourados.

Quero convidá-las a fazer parte da minha coleção.

A proposta é simples: que me enviem os exemplares que publicam e, em contrapartida, eu divulgo seus trabalhos nas minhas redes sociais, especialmente no Instagram e no Facebook.

Até agora, confesso, a resposta não foi exatamente como eu esperava.

Mas colecionador aprende cedo a ter paciência.

E algumas surpresas já aconteceram.

Autores que conhecem meu trabalho começaram a me apoiar. Alguns enviaram exemplares de seus livros. E cada livro que chega traz consigo algo muito maior do que algumas páginas impressas.

Traz um gesto.

Uma confiança.

Uma amizade.

Talvez seja justamente isso que eu mais goste nesta coleção.

No começo, eu imaginava que estava colecionando livros.

Hoje percebo que não.

Estou colecionando encontros.

Coleciono países que nunca visitei, idiomas que talvez nunca consiga falar, histórias que ainda não li e pessoas que, de alguma maneira, atravessaram o caminho da minha coleção.

Por isso, quando alguém me pergunta:

— Quantos livros você ainda precisa para completar sua coleção?

Eu sorrio.

Porque sei que não existe resposta.

Enquanto houver uma nova edição, uma nova tradução, um novo idioma, uma nova adaptação ou alguém disposto a enxergar O Pequeno Príncipe com outros olhos, haverá um livro que ainda não tenho.

E talvez seja justamente essa a beleza.

Minha coleção nunca estará completa.

E, sinceramente?

Espero que nunca esteja.

sábado, 13 de junho de 2026


 

Antoine Jean-Baptiste Marie Roger de Saint-Exupéry

 

No dia 29 de junho de 1900, em Lyon, na França, nascia Antoine Jean-Baptiste Marie Roger de Saint-Exupéry. Filho de uma família aristocrática, era descendente de antiga linhagem francesa. Seu pai, Jean de Saint-Exupéry, trabalhava como inspetor de seguros, e sua mãe, Marie Boyer de Fonscolombe (1875–1972), era uma mulher culta e uma pintora de grande talento.

 

Antoine perdeu o pai ainda muito pequeno e foi criado com muito amor pela mãe. Viveu parte da infância entre Lyon e a grande propriedade familiar de Saint-Maurice-de-Rémens, uma elegante casa de estilo clássico cercada por um vasto parque arborizado. Ali desfrutou de uma infância feliz, ainda que um tanto protegida — um verdadeiro pequeno príncipe.

 

Entre os companheiros de brincadeiras, destacava-se pela imaginação fértil, pelo espírito aventureiro e pela necessidade constante de explorar o desconhecido. Estudou, juntamente com o irmão François, no colégio Notre-Dame-de-Sainte-Croix, dirigido pelos padres jesuítas.

 

Um ponto decisivo de sua vida ocorreu em 1921, quando ingressou no serviço militar e foi enviado para Estrasburgo, onde iniciou a formação como piloto. Em 9 de julho daquele ano realizou seu primeiro voo solo, a bordo de um Sopwith F-CTEE. Obteve o brevê de piloto em 1922 e retornou a Paris, decidido a escrever. Foi, porém, um período difícil. Trabalhou em diversas atividades, entre elas como contador e vendedor de automóveis.

 

Em 1929, Saint-Exupéry transferiu-se para a América do Sul, integrando as rotas do correio aéreo que atravessavam os Andes. Foi o célebre período da aviação postal, experiência que marcaria profundamente sua obra literária.

 

Após a invasão da França durante a Segunda Guerra Mundial, voltou ao serviço militar. Apesar dos problemas de saúde e da idade considerada avançada para missões de combate, insistiu em voar e participou de diversas operações de reconhecimento. Recebeu, entre outras honrarias, a Cruz de Guerra.

 

Foi chamado de "herói romântico": um homem distante, quase irreal, seja por sua vida aventureira, seja pela forma misteriosa de sua morte. Em 31 de julho de 1944, aos quarenta e quatro anos, partiu para sua nona e última missão, com o objetivo de sobrevoar a região de Grenoble e Annecy.

 

Nunca regressou. Durante décadas, foi considerado desaparecido. Diversas hipóteses foram levantadas para explicar o ocorrido. Uma das mais poéticas dizia que, ao desviar-se da rota estabelecida para contemplar uma última vez os lugares de sua infância, teria sofrido uma pane e caído no mar enquanto tentava escapar dos aviões alemães. Hoje se sabe que os destroços de seu avião foram encontrados no Mar Mediterrâneo, mas o mistério sobre os momentos finais do escritor permanece.

 

Saint-Exupéry foi um idealista, um piloto corajoso e um homem de paixões intensas, cuja vida sentimental foi marcada por inquietações e desencontros. Contudo, o que permaneceu extraordinário não foi apenas sua existência aventurosa nem o enigma de sua morte, mas a literatura que produziu. Para ele, viver e escrever eram realidades inseparáveis. Costumava afirmar que "é necessário viver para poder escrever". De fato, grande parte de sua obra possui forte caráter autobiográfico, transformando experiências reais em narrativas de profunda dimensão humana e poética.

 

Talvez esse desfecho misterioso tenha contribuído para transformar toda a sua vida em romance.

 

Seu livro mais belo é, sem dúvida, O Pequeno Príncipe, a delicada fábula dedicada ao amigo Léon Werth. Não ao amigo adulto, mas ao menino que ele um dia fora. Uma dedicatória retroativa que faz do livro uma celebração da infância que continua a habitar cada idade da vida.

 

Bibliografia

 

O Aviador (1926) — L'Aviateur;

Correio do Sul (1929) — Courrier Sud;

Voo Noturno (1931) — Vol de nuit;

Terra dos Homens (1939) — Terre des hommes;

Piloto de Guerra (1942) — Pilote de guerre;

Carta a um Refém (1943) — Lettre à un otage;

O Pequeno Príncipe (1943) — Le Petit Prince;

A Cidadela (1948, publicação póstuma) — La Citadelle.

sexta-feira, 12 de junho de 2026


 

O Pequeno Príncipe no país do futebol

 José Marcos Ramos

 Imagino o Pequeno Príncipe desembarcando no Brasil num domingo de campeonato. Ele, acostumado a vulcões, baobás e ao silêncio do deserto, certamente estranharia o barulho. Não entenderia por que pessoas desconhecidas se abraçam de repente, por que alguém grita sozinho diante da televisão ou por que um ônibus inteiro prende a respiração ao redor de um pequeno rádio de pilha.

 

No começo, talvez pensasse que se trata de um ritual muito sério dos adultos. Afinal, os adultos gostam de números: quantos gols, quantos pontos, quantos títulos, quantos minutos faltam para o fim do jogo.

 

Mas bastaria observar um pouco mais para perceber que, no Brasil, o futebol é uma brincadeira que se recusa a envelhecer.

 

Às vezes, a bola rebola junto com o corpo do jogador que dribla um, dois ou três adversários antes do gol. Então acontece o milagre: o estádio sacode, a sala de casa vira arquibancada, o ônibus inteiro se transforma em torcida. O grito explode ao mesmo tempo em milhares de gargantas:

 

— Gol!

 

O Pequeno Príncipe talvez sorrisse. Veria meninos jogando na rua com traves improvisadas por chinelos, pais ensinando filhos a chutar com o lado do pé, avós encostando o radinho no ouvido para ouvir uma narração que transforma cada lance em epopeia.

 

A raposa lhe havia ensinado que somos responsáveis por aquilo que cativamos. Talvez seja por isso que tanta gente sofra e comemore por um time de futebol. Não é apenas a vitória que está em jogo. São as lembranças. O primeiro jogo no estádio. A camisa herdada do pai. A fotografia amarelada de um antigo craque. A infância inteira correndo atrás de uma bola.

 

No fim da partida, segurando a bola nas mãos e olhando para aquele povo capaz de transformar um simples jogo numa celebração coletiva, o Pequeno Príncipe diria, com espanto e alegria:

 

— Brasil! Brasil!

 

E descobriria que, no país do futebol, o essencial nem sempre é invisível aos olhos. Às vezes, ele rola pelo gramado, redondo como um pequeno planeta, convidando os adultos a brincar mais uma vez.