quarta-feira, 10 de junho de 2026

A morte no Pequeno Príncipe

“Não gritou. Tombou devagarinho como tomba uma árvore. Nem fez sequer barulho, por causa da areia.”

Quando li O Pequeno Príncipe na infância / adolescência, aquela cena não era morte. Era partida. Era retorno. Era a viagem de volta para sua rosa. A serpente não era ameaça. Era ponte.

Mas a gente cresce. E crescer pesa. Hoje, quando releio o Pequeno Príncipe, a pergunta me atravessa: Ele procurou a morte? Quando perguntou à serpente se o veneno era forte o suficiente… ele já tinha decidido? Ou será que não era desejo de morrer, mas necessidade de voltar?

Talvez o adulto veja suicídio onde a criança via transcendência. Talvez a infância ainda saiba algo que esquecemos: que certos retornos exigem deixar o corpo para trás.

O Pequeno Príncipe não gritou.

E o silêncio daquela queda continua ecoando dentro de nós. Porque, no fundo, a pergunta não é sobre ele. É sobre o que fazemos com nossas ausências.

 

 

terça-feira, 9 de junho de 2026


 

Entre a memória e a eternidade: Saint-Exupéry

 

Neste post, convido os leitores a percorrer algumas páginas da vida e da memória de Antoine de Saint-Exupéry.

Começamos pela sua certidão de nascimento, registrada em 29 de junho de 1900, marco inicial da trajetória daquele que viria a encantar gerações com "O Pequeno Príncipe".

Em seguida, apresento um raro convite para a missa celebrada em Nova Iorque, em 25 de novembro de 1945, pela alma do comandante Antoine de Saint-Exupéry, desaparecido em missão sobre a França em 31 de julho de 1944. O documento, assinado por sua viúva, Consuelo de Saint-Exupéry, revela a emoção e a esperança que ainda cercavam sua memória pouco mais de um ano após seu desaparecimento.

A terceira parte é dedicada a Consuelo, musa, companheira e inspiração de tantas páginas da obra exuperiana. Nela vemos seu retrato, pintado em Nova Iorque, em 1942, pelo artista americano Emlen Etting, além de um delicado desenho do Pequeno Príncipe realizado por ela própria.

Por fim, compartilho uma oração escrita por Saint-Exupéry, em tradução que realizei para o português. Nela encontramos não apenas o escritor e aviador, mas também o homem que buscava sentido, fraternidade e transcendência em meio às inquietações do seu tempo.

Uma pequena viagem por documentos, imagens e palavras que ajudam a compreender melhor o homem por trás do mito.

 

Cada doido com a sua mania

 

A minha mania é colecionar o livro O Pequeno Príncipe.

 

Quando decidi reunir exemplares da obra em diferentes línguas e dialetos, não imaginava a dimensão que essa paixão poderia alcançar. No início, eu comprava livros dos países que visitava. Mais tarde, com o advento da internet, descobri que não era o único “doido” com essa mania. Havia muitos outros colecionadores no Brasil e em diversos países.

 

A partir daí, surgiram amizades que atravessaram fronteiras. Nós, colecionadores brasileiros, passamos a trocar experiências, informações e incentivos para continuar ampliando nossas coleções. Participamos de grupos dedicados à obra, onde pessoas de diferentes culturas compartilham a mesma paixão pelo pequeno viajante dos asteroides.

 

Minha coleção cresceu graças a essas amizades. Muitos colecionadores estrangeiros me enviam exemplares publicados em seus países, e eu retribuo enviando edições brasileiras. Também conto com a ajuda de amigos viajantes, que costumam trazer livros dos lugares por onde passam.

 

Assim, além dos livros, ganhei algo ainda mais valioso: os amigos da minha coleção.

 

Infelizmente, manter uma coleção internacional tem se tornado cada vez mais difícil. Os livros estão mais caros, os custos de importação aumentaram e a alta do dólar pesa bastante no orçamento.

 

Por isso, se você desejar tornar-se um amigo da minha coleção, poderá contribuir de duas maneiras: enviando um exemplar de O Pequeno Príncipe de alguma edição diferente ou ajudando financeiramente na aquisição de novos lançamentos.

 

Toda colaboração será recebida com gratidão e carinho. Afinal, como nos ensinou Saint-Exupéry, “é o tempo que dedicamos a algo que o torna especial”.

 

Muito obrigado!

 


 

Os livros que nos fazem viajar

 

O Pequeno Príncipe, depois da decepção com sua rosa, resolveu visitar os asteroides próximos ao seu para ocupar-se e instruir-se. Para essa viagem, creio que utilizou a migração de pássaros selvagens para evadir-se de seu pequeno mundo. A ilustração dessa cena no livro é lindíssima.

 

Aproveitando a ideia de Antoine de Saint-Exupéry, tomei a ousadia de reinventar essa imagem. Em vez de pássaros, imaginei o Pequeno Príncipe viajando sobre livros, companheiros silenciosos que também nos levam para longe da realidade cotidiana.

 

Afinal, os livros possuem a mesma magia dos pássaros migratórios: transportam-nos para outros mundos, apresentam-nos novas paisagens, novos pensamentos e novas vidas. Quando desejamos evadir-nos da realidade, não precisamos necessariamente de asas. Muitas vezes, basta abrir um livro.

 

Assim, o Pequeno Príncipe parte novamente em sua jornada, não carregado pelo voo dos pássaros, mas pela força das histórias. Sobre as páginas de Os Miseráveis, A Divina Comédia e tantos outros clássicos, ele continua sua eterna busca por atividade, conhecimento e encantamento.

 

Porque há viagens que se fazem com os pés, outras com asas, e algumas das mais extraordinárias com livros.


 

Capítulo XXI – A Raposa e o Segredo da Amizade

— “Vem brincar comigo. Estou tão triste.”

O convite feito pelo principezinho à raposa parece simples, mas inaugura uma das mais profundas reflexões sobre a amizade na literatura.

A resposta da raposa é uma negativa:

— “Não posso brincar contigo. Não me cativaram ainda.”

É justamente dessa recusa que nasce o ensinamento. A raposa apresenta ao pequeno príncipe a importância dos laços construídos com paciência, presença e dedicação. Ninguém se torna amigo de alguém instantaneamente. É preciso tempo para criar vínculos, para transformar o outro em alguém único no mundo.

Um detalhe curioso do capítulo é que a raposa aparece sob uma macieira. Na tradição bíblica, a maçã costuma ser associada à árvore do conhecimento. Não deixa de ser simbólico que seja ali, naquele cenário, que o pequeno príncipe receba uma das maiores lições de sua viagem.

Ao compreender o significado de “cativar”, ele descobre que os laços criam responsabilidades. Por isso, a raposa lhe revela uma das frases mais marcantes do livro:

"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas."

Mais do que uma lição sobre amizade, essa frase fala de amor, cuidado e compromisso. As pessoas que entram em nossa vida e que conquistam nosso coração deixam de ser apenas mais uma entre tantas. Tornam-se únicas. E a partir desse momento passamos a carregar, com alegria e responsabilidade, uma parte de sua história junto da nossa.

É um dos capítulos em que Antoine de Saint-Exupéry concentra, em poucas páginas, a essência de toda a obra: a descoberta de que o verdadeiro valor das coisas nasce dos laços que construímos.


 

Mais uma curiosidade sobre O Pequeno Príncipe

 

Quando se diz que a literatura liberta, normalmente pensamos no poder dos livros de ampliar horizontes e transformar vidas. Em alguns casos, porém, ela também chega aos tribunais.

No Brasil, a leitura pode contribuir para a redução da pena de pessoas privadas de liberdade. Mas uma notícia vinda da Argentina mostrou uma situação curiosa: a leitura de O Pequeno Príncipe transformou-se em uma determinação judicial.

A juíza Carolina Macarrein, titular do Juizado de Família, Infância e Adolescência nº 4 de Corrientes, determinou que um pai lesse a obra de Antoine de Saint-Exupéry para refletir sobre a importância da empatia e da responsabilidade paterna. Além de negar o pedido apresentado pelo homem, a magistrada marcou uma nova audiência para que ele relatasse as conclusões que tirou da leitura.

O pai havia solicitado a interrupção da pensão alimentícia destinada à filha de 21 anos, alegando que o Certificado Único de Deficiência da jovem estava vencido. A juíza entendeu que o argumento demonstrava uma preocupante falta de empatia em relação aos filhos, um deles com deficiência e outro enfrentando problemas de saúde.

 

Em entrevista à jornalista María Mercedes Vázquez, da rádio Corrientes no ar, Macarrein classificou as declarações do pai como lamentáveis:

“Se este senhor diz isso a um juiz, o que dirá à pobre mulher e aos seus filhos? Não é assim que a coisa funciona; essa conduta é reprovável.”

Para a magistrada, a leitura de O Pequeno Príncipe poderia ajudá-lo a compreender melhor o significado da empatia.

Na decisão, ela destacou que ser pai não se resume ao cumprimento de uma obrigação financeira. A paternidade também envolve presença, compreensão, cuidado e apoio emocional, sobretudo quando os filhos se encontram em situação de vulnerabilidade.

Embora o livro não trate diretamente da relação entre pais e filhos, seus ensinamentos abordam valores universais como amor, amizade, responsabilidade e respeito ao próximo. Por isso, a juíza considerou que a obra poderia servir como instrumento de reflexão.

Segundo ela:

“Neste caso, entendi que as obrigações parentais não se cumprem apenas com dinheiro, mas também com amor, compreensão e presença. Por isso determinei que o pai leia o livro: para que se lembre de que ‘o essencial é invisível aos olhos’ e que o essencial para seus filhos é seu cuidado e afeto.”

 

Na semana seguinte, o homem deveria retornar ao tribunal para comentar o que havia aprendido com a leitura.

Curiosamente, aquilo que para milhões de leitores representa um convite à imaginação e à sensibilidade tornou-se, nesse caso, uma tarefa determinada pela Justiça. Talvez porque poucos livros expressem tão bem a ideia de responsabilidade quanto a famosa lição da raposa ao Pequeno Príncipe:

"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas."

Uma frase que continua atravessando gerações — e, pelo visto, até mesmo processos judiciais.


 

O Pequeno Príncipe: o livro das misses

 

Nos anos 1950 e 1960, era impressionante a audiência que o concurso Miss Brasil alcançava. A antiga TV Tupi transmitia o evento ao vivo para todo o país. As candidatas desfilavam em traje típico, traje de gala e maiô — este último, sem dúvida, o momento mais aguardado pelo público.

 

A vencedora estampava a capa da revista O Cruzeiro e passava a ocupar lugar de destaque no imaginário dos brasileiros. Algumas misses ficaram para sempre na memória popular como símbolos da beleza feminina do país. Lembro-me de nomes como Martha Rocha, Ieda Maria Vargas, Vera Fischer e Stael Abelha.

 

Além dos desfiles, havia também a entrevista, na qual diversas perguntas eram dirigidas às candidatas. Entre elas, uma era quase obrigatória: qual o livro que haviam lido e de que mais gostaram.

 

Curiosamente, o título mais citado era O Pequeno Príncipe. Por isso, durante muito tempo, quando alguém mencionava O Pequeno Príncipe, era comum ouvir a expressão: “o livro das misses”.

 

Talvez essa associação tenha contribuído para ampliar ainda mais a popularidade da obra entre os leitores brasileiros, transformando-a em um verdadeiro clássico presente nas estantes, nos colégios e na memória afetiva de várias gerações.

domingo, 16 de novembro de 2025

A Obra que se traduz ao Mundo

 

O Pequeno Príncipe: A Obra que se traduz ao Mundo

 

José Marcos Ramos

 

Há livros que viajam mais longe do que seus autores jamais poderiam imaginar. O Pequeno Príncipe, publicado em 1943, nasceu bilíngue — francês e inglês —, mas talvez nem mesmo Saint-Exupéry suspeitasse que sua criação se tornaria um dos livros mais traduzidos do planeta. A ponto de ocupar, entre as obras literárias, um lugar singular: nenhum outro título ficcional atravessou tantas fronteiras linguísticas quanto ele.

 

Costuma-se dizer que os três livros mais traduzidos do mundo são a Bíblia, o Alcorão e O Pequeno Príncipe. Os dois primeiros são textos religiosos e fundadores; já o terceiro é um pequeno relato poético, de aparência infantil, mas dotado de um alcance simbólico que fala à humanidade inteira. É justamente aí que reside o seu mistério: por que um livro tão breve, escrito em plena guerra, alcança tamanha universalidade?

 

Talvez porque, ao contrário dos tratados filosóficos e dos romances monumentais, O Pequeno Príncipe se dirige ao núcleo essencial da condição humana: o desejo de sentido, a preservação da imaginação, a simplicidade que o mundo adulto insiste em abandonar. Cada tradução não é apenas a passagem de palavras de uma língua para outra — é uma transmissão de sensibilidade.

 

A tradução como gesto de permanência

 

O fato de a obra já ultrapassar quatrocentas traduções não é simples curiosidade estatística. É indício de que ela foi adotada, apropriada e reinventada por culturas as mais diversas. As traduções não são uníssonas: cada idioma oferece ao texto um novo brilho, um novo sotaque afetivo.

 

No Brasil, a primeira versão apareceu em 1952, por Dom Marcos Barbosa, monge beneditino mineiro. A escolha não foi casual. Um tradutor que também era poeta sabia que o essencial do livro não estava apenas no sentido literal das frases, mas na cadência, na delicadeza, no silêncio entre as palavras.

O Pequeno Príncipe brasileiro, assim, nasceu sob mãos que compreendiam tanto a espiritualidade quanto a poesia — dimensões inseparáveis da obra.

 

As línguas que resistem, mesmo quando morrem

 

Há algo de profundamente simbólico no fato de O Pequeno Príncipe ser traduzido também para línguas mortas. Latim, grego antigo, sânscrito, egípcio, alemão antigo, francês antigo: idiomas que já não ecoam nas ruas, mas sobrevivem na memória escrita.

 

Traduzir um livro moderno para uma língua extinta é um gesto de arqueologia literária, mas também de preservação. É como se cada tradução dissesse:

“Mesmo aquilo que o tempo silenciou ainda pode acolher a beleza.”

 

O mesmo ocorre com dialetos regionais. Muitas escolas adotam edições do livro para manter viva a fala dos avós, das aldeias, dos vales. A obra, que nasceu em meio ao ruído da Segunda Guerra, torna-se assim instrumento de continuidade cultural.

 

Traduções que brincam com o possível

 

Se a obra fala ao coração, ela também desperta o jogo. Algumas traduções beiram o experimentalismo: uma edição espelhada, legível apenas diante do espelho; outra turca, na qual cada cor corresponde a uma letra; outra ainda depende de celular para ser decodificada.

E há, claro, a tradução para o klingon — a primeira língua não humana criada pelo imaginário da ficção científica.

É como se o livro confirmasse sua própria mensagem: o essencial só se vê com o coração, mas a imaginação também exige seus brinquedos.

 

Saint-Exupéry: o homem que escreveu o voo

 

Para compreender o alcance de seu livro, é preciso lembrar de seu autor. Antoine de Saint-Exupéry não era apenas escritor: era aviador, repórter, pioneiro de rotas aéreas que conectaram continentes. Viveu entre o risco e a contemplação, entre o céu e a palavra.

Sua morte, em 1944, em missão de reconhecimento, sela a imagem de um autor em permanente travessia — física e espiritual.

 

Talvez por isso O Pequeno Príncipe fale tanto ao sentimento humano de exílio, de busca, de viagem interior. O menino que vem de um asteroide distante é, de certo modo, a figura do viajante eterno que Saint-Exupéry sempre foi.

 

Por que seguimos traduzindo?

 

A pergunta permanece: por que traduzir tantas vezes um livro já conhecido? Porque cada época lê O Pequeno Príncipe à sua maneira. Porque cada língua oferece uma nuance diferente do afeto.

E, sobretudo, porque a obra se tornou uma espécie de espelho da humanidade — um lugar onde adultos reencontram a criança perdida e onde crianças descobrem a profundidade do que ainda não sabem nomear.

 

Traduzir O Pequeno Príncipe é, em última instância, traduzir a si próprio.

 

Eu, colecionador de suas edições, testemunho isso:

cada livro, vindo de canto remoto do mundo, parece dizer a mesma frase com nova ternura.

E é essa multiplicidade que mantém a obra viva.

Não apenas como literatura, mas como experiência.