terça-feira, 29 de setembro de 2009

O Pequeno Príncipe


Le Petit Prince (O Pequeno Príncipe), de Antoine de Saint-Exupéry é provavelmente o livro que mais vezes li em minha vida. Não simplesmente porque gosto da história, nem do modo envolvente com que é contada, nem somente por causa das pérolas filosóficas que encontramos a cada página virada; minha paixão pelo livro, e talvez a de todas as pessoas que já se deram ao prazer de se encantar com a narrativa do pequeno habitante do planeta B612 é por ser sua busca um retrato fiel de nossa própria percepção do mundo e dos homens, do que consideramos verdadeiramente importante mas que, com a desculpa de que somos obrigados pela vida, acabamos deixando de lado em nome daquilo que mais desprezamos. É a percepção do simples e óbvio, contada de modo claro e que a cada vez que lemos parece tão novo como a primeira vez em que nos aventuramos nessa viagem de descobertas que O Pequeno Príncipe nos propõe fazer.

Muitas pessoas torcem o rosto para esse livro, classificando-o como literatura-infantil. No entanto, é igualmente comum ouvirmos adultos recém-encantados afirmarem que este não é um livro para crianças. Mas, se ainda consideram-se adultos depois de lerem o livro, talvez não tenham compreendido a verdadeira essência da mensagem. As pessoas não são a idade que tem. As pessoas são a soma de suas experiências e percepções que se acumulam com o passar dos dias.

Quando o pequeno príncipe deixou seu planeta, ele era inocente (uma característica própria da infância, que atualmente está morrendo nas crianças cada vez mais cedo) e apaixonado (uma característica adolescente, que tem cruzado as fronteiras da infância sem piedade à medida que morre sua inocência), trabalhava duro e era ferido pelos espinhos de sua rosa (uma característica da vida adulta que põe em cheque tudo o que cremos e que nos impulsiona rumo ao comodismo ou à inovação), mas, principalmente, não tinha resposta para as perguntas mais profundas de sua alma (uma característica atemporal que afeta a todos e que torna nossa vida uma eterna jornada de busca e descobertas).

Assim somos nós todos, um misto de crianças, jovens e adultos tentando descobrir em nossas experiências um sentido para nossa própria existência. E os conceitos que adquirimos nessa jornada é o que nos torna únicos.

Então, O Pequeno Príncipe não é um livro para crianças, jovens ou adultos, mas para essas pessoas que se descobrem únicas no mundo em seu processo de crescimento e amadurecimento.

Segue uma análise de cada personagem do livro e das lições que tenho tirado deles:

“'As pessoas grandes são mesmo extraordinárias', repetia simplesmente no percurso da viagem.”
Perplexo com as contradições das pessoas grandes, o pequeno príncipe segue sua viagem de compreensão dos mundos ao seu redor como um símbolo dessa nossa eterna busca por significado e inevitável confronto com as idéias e comportamentos alheios que à princípio nos surpreendem, ou mesmo irritam, mas que por fim contribuem para o desenvolvimento de nossa própria percepção das coisas. Extraordinário e misterioso, ele morava num planeta muito pequeno, como é o nosso mundo particular e o nosso campo de visão até percebermos que há um grande universo de diferentes mundos ao nosso redor. Ali ele se viu, um dia, arrebatado por um sentimento novo que lhe fez questionar a mediocridade de sua rotina.

“É preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas”....
A rosa começou a crescer, parecia vir do nada. Ficou horas se arrumando e ajeitando suas pétalas. Era linda! Mas também orgulhosa, caprichosa e contraditória. Apesar de todos os cuidados do pequeno príncipe, ela nunca estava satisfeita. Extremamente feminina e sedutora a rosa é um misto de caprichos e sabedoria. Um dos personagens mais enigmáticos do livro, ela é a novidade que atiça a curiosidade. A novidade que é deixada de lado em prol de vôos maiores, mas que sempre será considerada a lembrança mais marcante do passado. Em sua sabedoria, ela entendia o papel do sofrimento no nosso processo de busca da felicidade.

“As pessoas grandes aconselharam-me a deixar de lado os desenhos de jibóias abertas ou fechadas.”
O piloto teve sua sensibilidade artística e a sua capacidade de ver além das aparências cerceadas por aqueles que haviam se entregado à monotonia de seus pequenos mundos. Mas anos depois, longe de todos, desenha a sua própria história com a ajuda daquele que deixou seu mundinho de lado para entrar nos mundos dos outros e aprender com eles. Tocado pela ingenuidade e simplicidade do pequeno príncipe, o piloto redescobre seus talentos e desperta para a beleza das coisas simples.

"É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar"
O rei é o primeiro dos “donos do mundo” que o pequeno príncipe encontra nas galáxias. Ele pensa que tudo e todos são seus súditos e tem necessidade de controlá-los. Mas, com sabedoria, nos ensina que cada um só pode dar aquilo que tem. É interessante notar que mesmo os personagens que aparentemente representam falhas de caráter tem algo a nos ensinar nesse livro assim como na vida.

"Mas o vaidoso não ouviu. Os vaidosos só ouvem elogios."
O vaidoso precisa da admiração de todos para comprovar o seu valor. Ele nos faz lembrar que precisamos reconhecer nossos próprios talentos e capacidades, e não depender de elogios dos outros para nos auto-afirmar.

“– Por que é que bebes?
– Para esquecer.
– Esquecer o quê?
– Esquecer que eu tenho vergonha.
– Vergonha de quê?
– Vergonha de beber!”
O bêbado tenta escapar da realidade por meio do álcool, mas não consegue escapar da vergonha de ser como é. O seu desabafo é um alerta contra o vício nas mais diferentes formas com que se manifesta. Todos temos nossos vícios. Um vício é um hábito freqüente que normalmente desenvolvemos para esquecer ou fugir daquilo que não nos agrada em nossa realidade. Alguns vícios são menos saudáveis que outros. E há aqueles que são doentios. E essa doença se caracteriza na dependência do hábito não pelos resultados alcançados, mas pela própria distorção de seu propósito.

"– E de que te serve possuir as estrelas?
– Serve-me para ser rico.
– E para que te serve ser rico?
– Para comprar outras estrelas, se alguém achar.
'Esse aí', disse o principezinho para si mesmo, 'raciocina um pouco como o bêbado.'"
O homem de negócios está tão ocupado contando o que acumulou que não pode desfrutar da vida. O pequeno príncipe nos faz ver que isso também é um vício. É preciso valorizar quem você é, e não o que você tem. O senso de prioridade, que varia de um indivíduo pra outro, é o que pode livrar alguém do vício ou afundá-lo ainda mais nele.

"Aí é que está o drama! O planeta de ano em ano gira mais depressa, e o regulamento não muda!"
Um bom homem cumpre o seu dever. Mas como ele mesmo diz, "É possível ser fiel e preguiçoso..." O universo está em constante evolução. O homem, as crenças e as relações humanas também. Mas o acendedor de lampiões não tem o bom senso de questionar as ordens e trabalha sem parar, mesmo sabendo que não vai chegar a lugar algum. Às vezes, nos prendemos de tal modo às nossas ocupações que achamos que o mundo não funcionará sem nossa contribuição. Nos sentimos imprescindíveis como uma engrenagem no funcionamento desse mundo, e vamos acumulando mais responsabilidades, de modo que o tempo vai-se esvaindo. Quando vemos, estamos num ritmo tão acelerado que já não podemos mais parar. Precisamos aprender a respeitar nosso próprio ritmo e não abraçar mais responsabilidades do que aquelas que nossas forças permitem.

"É muito raro um oceano secar, é raro uma montanha se mover...."
O geógrafo sabe toda a teoria, mas não aplica seus conhecimentos. Nunca sai da sua mesa para explorar as descobertas. Como um bom burocrata, declara que isso é trabalho de outra pessoa. É ele quem recomenda ao pequeno príncipe que visite o planeta Terra. E deixa o principezinho abalado quando lhe conta que sua flor é efêmera. É justamente por nunca ter aplicado seus conhecimentos que o geógrafo não percebe o efeito que aquele conceito gera no coração do princepezinho. O excesso de conhecimento associado à falta de empatia e vivência pode ser um comportamento igualmente danoso.

"Mas ninguém lhe dera crédito por causa das roupas que usava. As pessoas grandes são assim."
Os adultos, especialmente os sofisticados materialistas, julgam pelas aparências. Por isso, o astrônomo turco é desprezado pela comunidade científica até aparecer em elegantes roupas ocidentais. Sua mensagem (seu conteúdo) era importante, sua descoberta (sua contribuição) era relevante, mas isso só teve valor quando sua roupa (sua aparência) foi suficiente para atrair a atenção e despertar a confiança daqueles que o ouviam.

"‘Por que é que um chapéu faria medo?’ (...) Desenhei então o interior da jibóia, para que as pessoas grandes pudessem compreender. Elas têm sempre necessidade de explicações."
O primeiro desenho do piloto foi confundido com um chapéu e somente depois que ele dissecou sua primeira obra numa segunda de caráter mais explicativo é que as pessoas grandes perceberam do que se tratava, mas ainda assim não entenderam o valor emocional do desenho nem valorizaram o talento da criança, pois seu senso de prioridade lhes cegava pras coisas que não estavam dentro de seu campo limitado de valores.

"Desenha um carneiro para mim, por favor."
“Era assim mesmo que eu queria!”.
Nada pode corresponder ao poder da nossa imaginação. Ela supera o conhecimento, pois não tem limites, e nos impulsiona para novas descobertas. O desenho da caixa com o carneiro dentro é uma ode à criatividade e a reação do pequeno príncipe é o oposto da reação das pessoas grandes em relação ao desenho da jibóia.

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”
A sábia raposa ensina o pequeno príncipe a compartilhar. E explica-lhe que, apesar de existirem milhares de flores parecidas com a dele, aquela rosa que ele deixou em seu planeta e por quem tem tanto afeto é única em seu mundo, e foi o tempo que ele dedicou a ela que a fez tão importante. Com a raposa, aprendemos sobre o valor de cativar e ser cativado e percebemos que isso requer responsabilidade. Seja um amor, um amigo, um talento que possuímos e ou aquilo que conquistamos durante a vida, por qualquer coisa que cativemos nos tornamos responsáveis. E essa responsabilidade requer uma melhor administração de nossas prioridades e valores a fim de que saibamos administrar o nosso tempo em prol daquilo que cativamos. E essa é uma das mais importantes mensagens do livro.

"Mas sou mais poderosa do que o dedo de um rei.”
Embora fale sempre por enigmas, a serpente é o personagem mais franco de toda a história. Ela respeita o que é puro e verdadeiro.
Valor é um dos temas mais discutidos no livro. Na frase "o essencial é invisível aos olhos" o autor nos dá uma resposta de onde espera que encontremos o verdadeiro valor das coisas e em que proporção deve ser dado esse valor. Forma e conteúdo acabam sendo relevantes somente quando associadas ao valor correto e na medida certa. E é essa mensagem poderosa e o modo simples e claro com que é passada e o fato de se renovar a cada leitura que faz de O Pequeno Príncipe um de meus livros preferidos
Eliude A. Santos
Este texto foi publicado originalmente no blog: Ode ao Ego

2 comentários:

Eliude A. Santos disse...

Parabéns pelo Blog... Desculpa não ter visitado antes, mas andei meio corrido esses últimos meses... Será sempre bem vindo lá no Ode ao Ego.

Eliude A. Santos.

Anônimo disse...

muito bom parabens