sábado, 15 de agosto de 2026

 


 

A coleção que nunca acaba

Há coleções que um dia chegam ao fim.

Quem coleciona figurinhas sabe disso. Preenche o último espaço do álbum, olha para a página completa e sente aquela mistura de alegria e saudade. Acabou.

Com carros antigos também é possível imaginar um limite. Um dia, talvez, você consiga encontrar aquele modelo que faltava, restaurá-lo e colocá-lo ao lado dos outros. Pronto: coleção completa.

Até as coleções de itens de uma promoção têm prazo para terminar. A promoção acaba, os itens desaparecem e, depois de algum esforço, podemos dizer: consegui todos.

Mas existe uma coleção que parece ter feito um pacto com a eternidade.

A minha.

Coleciono O Pequeno Príncipe.

E aí começa o problema.

Porque nunca aparece a última peça.

Quando penso que já tenho uma boa quantidade, descubro uma nova edição. Depois aparece uma edição em outro idioma. Ou em um dialeto que eu nem sabia que existia. Surge uma nova tradução, uma adaptação, uma edição ilustrada, um livro sobre o livro, um ensaio, uma interpretação diferente da obra.

 

E lá vou eu novamente.

É quase como se Antoine de Saint-Exupéry tivesse deixado uma pequena raposa escondida em cada canto do mundo, esperando que eu a encontrasse.

O problema seguinte é o dinheiro.

Porque livros custam dinheiro.

Nesse quesito, porém, descobri uma coisa maravilhosa: tenho amigos que viajam.

E amigo que viaja e conhece minha coleção sabe que não pode voltar para casa sem olhar uma livraria pelo caminho.

Às vezes recebo uma mensagem:

— José Marcos, encontrei um Pequeno Príncipe aqui. Você já tem?

A pergunta é quase uma formalidade.

Quase sempre a resposta é:

— Não tenho.

E, se tenho, invento uma razão para dizer que aquele é diferente.

Porque, afinal, é diferente.

É outra edição.

Outro idioma.

Outra capa.

Outro país.

Outro momento da história daquele pequeno livro que continua viajando pelo mundo.

E chegamos à questão do espaço.

Essa é mais complicada.

Minha casa está, pouco a pouco, deixando de ser apenas uma casa.

Está virando biblioteca.

As estantes já não parecem suficientes. Os livros aparecem em lugares onde antes havia espaço. Eles se multiplicam silenciosamente, como se tivessem aprendido com o próprio Pequeno Príncipe que as coisas importantes nem sempre obedecem às regras do tamanho.

Minha coleção já não ocupa apenas prateleiras.

Ocupa paredes, cantos, lembranças e histórias.

Cada exemplar tem alguma coisa para contar.

Alguns vieram de viagens de amigos. Outros chegaram pelas mãos de autores. Outros foram descobertos depois de muita procura. Alguns me fazem lembrar de uma pessoa, de um lugar ou de um determinado momento da vida.

Por isso, comecei agora uma nova tentativa.

Estou procurando as editoras brasileiras que publicam O Pequeno Príncipe, suas adaptações, estudos e obras relacionadas àquele pequeno personagem de cabelos dourados.

Quero convidá-las a fazer parte da minha coleção.

A proposta é simples: que me enviem os exemplares que publicam e, em contrapartida, eu divulgo seus trabalhos nas minhas redes sociais, especialmente no Instagram e no Facebook.

Até agora, confesso, a resposta não foi exatamente como eu esperava.

Mas colecionador aprende cedo a ter paciência.

E algumas surpresas já aconteceram.

Autores que conhecem meu trabalho começaram a me apoiar. Alguns enviaram exemplares de seus livros. E cada livro que chega traz consigo algo muito maior do que algumas páginas impressas.

Traz um gesto.

Uma confiança.

Uma amizade.

Talvez seja justamente isso que eu mais goste nesta coleção.

No começo, eu imaginava que estava colecionando livros.

Hoje percebo que não.

Estou colecionando encontros.

Coleciono países que nunca visitei, idiomas que talvez nunca consiga falar, histórias que ainda não li e pessoas que, de alguma maneira, atravessaram o caminho da minha coleção.

Por isso, quando alguém me pergunta:

— Quantos livros você ainda precisa para completar sua coleção?

Eu sorrio.

Porque sei que não existe resposta.

Enquanto houver uma nova edição, uma nova tradução, um novo idioma, uma nova adaptação ou alguém disposto a enxergar O Pequeno Príncipe com outros olhos, haverá um livro que ainda não tenho.

E talvez seja justamente essa a beleza.

Minha coleção nunca estará completa.

E, sinceramente?

Espero que nunca esteja.