Mais uma
curiosidade sobre O Pequeno Príncipe
Quando
se diz que a literatura liberta, normalmente pensamos no poder dos livros de
ampliar horizontes e transformar vidas. Em alguns casos, porém, ela também
chega aos tribunais.
No
Brasil, a leitura pode contribuir para a redução da pena de pessoas privadas de
liberdade. Mas uma notícia vinda da Argentina mostrou uma situação curiosa: a
leitura de O Pequeno Príncipe transformou-se em uma determinação judicial.
A juíza
Carolina Macarrein, titular do Juizado de Família, Infância e Adolescência nº 4
de Corrientes, determinou que um pai lesse a obra de Antoine de Saint-Exupéry
para refletir sobre a importância da empatia e da responsabilidade paterna.
Além de negar o pedido apresentado pelo homem, a magistrada marcou uma nova
audiência para que ele relatasse as conclusões que tirou da leitura.
O pai
havia solicitado a interrupção da pensão alimentícia destinada à filha de 21
anos, alegando que o Certificado Único de Deficiência da jovem estava vencido.
A juíza entendeu que o argumento demonstrava uma preocupante falta de empatia
em relação aos filhos, um deles com deficiência e outro enfrentando problemas
de saúde.
Em
entrevista à jornalista María Mercedes Vázquez, da rádio Corrientes no ar,
Macarrein classificou as declarações do pai como lamentáveis:
“Se este
senhor diz isso a um juiz, o que dirá à pobre mulher e aos seus filhos? Não é
assim que a coisa funciona; essa conduta é reprovável.”
Para a
magistrada, a leitura de O Pequeno Príncipe poderia ajudá-lo a compreender
melhor o significado da empatia.
Na
decisão, ela destacou que ser pai não se resume ao cumprimento de uma obrigação
financeira. A paternidade também envolve presença, compreensão, cuidado e apoio
emocional, sobretudo quando os filhos se encontram em situação de
vulnerabilidade.
Embora o
livro não trate diretamente da relação entre pais e filhos, seus ensinamentos
abordam valores universais como amor, amizade, responsabilidade e respeito ao
próximo. Por isso, a juíza considerou que a obra poderia servir como
instrumento de reflexão.
Segundo
ela:
“Neste
caso, entendi que as obrigações parentais não se cumprem apenas com dinheiro,
mas também com amor, compreensão e presença. Por isso determinei que o pai leia
o livro: para que se lembre de que ‘o essencial é invisível aos olhos’ e que o
essencial para seus filhos é seu cuidado e afeto.”
Na
semana seguinte, o homem deveria retornar ao tribunal para comentar o que havia
aprendido com a leitura.
Curiosamente,
aquilo que para milhões de leitores representa um convite à imaginação e à
sensibilidade tornou-se, nesse caso, uma tarefa determinada pela Justiça.
Talvez porque poucos livros expressem tão bem a ideia de responsabilidade
quanto a famosa lição da raposa ao Pequeno Príncipe:
"Tu
te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas."
Uma
frase que continua atravessando gerações — e, pelo visto, até mesmo processos
judiciais.