terça-feira, 8 de setembro de 2026




A intertextualidade nas charges do cartunista Benett

 

A série de tiras do cartunista Alberto Benett explora a intertextualidade ao aproximar o universo poético e lúdico de O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, do absurdo, da melancolia e do niilismo presentes em outros clássicos da literatura, das artes e da cultura popular.

 

O Pequeno Príncipe e a ilusão das formas

 

Benett retoma a célebre ilustração da jiboia que engoliu um elefante — desenho que os adultos interpretavam apenas como um chapéu — e amplia seu significado. Ao colocar vários animais abrigados uns dentro dos outros, o cartunista sugere que a realidade pode possuir infinitas camadas e que aquilo que vemos nem sempre corresponde ao que realmente existe.

 

A tira dialoga, assim, com uma das ideias centrais de O Pequeno Príncipe: “O essencial é invisível aos olhos.” O humor nasce justamente da distância entre a aparência e a realidade.

 

A Metamorfose, de Franz Kafka

 

Ao colocar a jiboia na cama de Gregor Samsa, às cinco horas da manhã, Benett recria a cena inicial de A Metamorfose, de Franz Kafka. Na obra original, Gregor desperta transformado em um inseto monstruoso. Na tira, porém, a transformação é substituída pela presença da cobra de O Pequeno Príncipe.

 

O encontro dessas duas narrativas produz um humor absurdo, no qual a angústia existencial e a opressão do trabalho, presentes na obra de Kafka, misturam-se ao surrealismo da fábula de Saint-Exupéry.

 

O Corcunda de Notre-Dame

 

No encontro entre Quasimodo e a jiboia, Benett explora a semelhança visual entre a corcunda do personagem de Victor Hugo e o relevo formado pelo elefante no interior da serpente.

 

A pergunta ingênua de Quasimodo — “Você também comeu um elefante?” — estabelece uma ponte cômica entre sua aparência física e o desenho que os adultos confundiam com um chapéu. A graça nasce do reconhecimento de uma forma semelhante, embora produzida por circunstâncias completamente diferentes.

 

O pinguim niilista

 

Em outra releitura do asteroide B-612, a raposa, que no livro ensina ao Pequeno Príncipe o significado do afeto, da amizade e da responsabilidade, é substituída pelo chamado “pinguim niilista”, popularizado por uma cena do documentário de Werner Herzog.

 

O tom poético da narrativa original dá lugar ao niilismo. A procura por vínculos afetivos é confrontada com a solidão e com a aparente falta de sentido da existência. Benett transforma, dessa maneira, a delicadeza da obra de Saint-Exupéry em uma reflexão melancólica sobre a condição humana.

 

O Pequeno Príncipe e Maquiavel

 

A imagem do Pequeno Príncipe lendo O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, cria um jogo imediato entre os títulos das duas obras. O menino que representa a pureza, a sensibilidade e o olhar da infância aparece diante de um tratado associado ao poder, à estratégia e ao comportamento dos governantes.

 

A tira também nos remete ao episódio de um julgamento no qual um advogado confundiu as autorias das duas obras. A troca transforma Antoine de Saint-Exupéry e Nicolau Maquiavel em personagens involuntários de uma situação quase tão absurda quanto as próprias charges de Benett.

 

Magritte e “A traição das imagens”

 

Outra tira estabelece um diálogo com A traição das imagens (La Trahison des images), obra pintada por René Magritte em 1929. O quadro apresenta um cachimbo acompanhado da frase: “Ceci n’est pas une pipe” — “Isto não é um cachimbo”.

 

Magritte questiona a relação entre a realidade e sua representação: a figura não é um cachimbo verdadeiro, mas apenas a imagem de um cachimbo.

 

Ao lado do quadro, Benett coloca a silhueta clássica da jiboia que engoliu um elefante. Para os adultos de O Pequeno Príncipe, aquela forma representava apenas um chapéu. A jiboia, então, olha para a pintura e declara:

 

— Eu te entendo. Também não sou o que as pessoas pensam que sou.

 

Benett aproxima as duas obras por meio de uma questão comum: a diferença entre aquilo que uma imagem mostra e aquilo que o observador acredita estar vendo. Tanto o cachimbo de Magritte quanto a jiboia de Saint-Exupéry desafiam a interpretação imediata e superficial.

 

Alice no País das Maravilhas

 

A presença do Coelho Branco, personagem de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, acrescenta outra camada de intertextualidade à cena. Colocado como observador em uma galeria de arte, o personagem reforça o ambiente de estranhamento, curiosidade e absurdo.

 

Assim como Alice atravessa um mundo no qual a lógica convencional deixa de funcionar, o leitor das charges de Benett é convidado a abandonar as interpretações mais óbvias e a enxergar além das aparências.

 

A jiboia e o disfarce conveniente

 

Em outra situação, Benett brinca com a própria metáfora criada por Saint-Exupéry. No livro, a afirmação “é apenas um chapéu” representa a visão limitada dos adultos, incapazes de perceber a imaginação contida no desenho.

 

Na charge, entretanto, a jiboia aproveita essa interpretação equivocada como um disfarce conveniente. Diante do maior predador, ela tenta esconder que devorou seu filhote, afirmando ser apenas um chapéu. A antiga incompreensão dos adultos transforma-se, então, em estratégia de sobrevivência.

 

Considerações finais

 

Por meio do humor gráfico e da combinação de referências, Benett transporta O Pequeno Príncipe para outros universos literários, artísticos e culturais. Kafka, Victor Hugo, Maquiavel, Magritte, Lewis Carroll e Werner Herzog passam a dialogar com Saint-Exupéry em encontros improváveis, mas repletos de significado.

 

Suas charges preservam elementos reconhecíveis da obra original, ao mesmo tempo que transformam sua poesia e delicadeza em comentários bem-humorados, absurdos e, por vezes, melancólicos sobre as ilusões, os julgamentos superficiais e as limitações do olhar adulto. Em Benett, aquilo que parece apenas uma brincadeira visual revela novas camadas de interpretação — porque uma imagem, como uma pessoa ou uma história, raramente é apenas aquilo que aparenta ser.

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