A intertextualidade nas charges do
cartunista Benett
A série de tiras do cartunista
Alberto Benett explora a intertextualidade ao aproximar o universo poético e
lúdico de O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, do absurdo, da
melancolia e do niilismo presentes em outros clássicos da literatura, das artes
e da cultura popular.
O Pequeno Príncipe e a ilusão das
formas
Benett retoma a célebre ilustração da
jiboia que engoliu um elefante — desenho que os adultos interpretavam apenas
como um chapéu — e amplia seu significado. Ao colocar vários animais abrigados
uns dentro dos outros, o cartunista sugere que a realidade pode possuir
infinitas camadas e que aquilo que vemos nem sempre corresponde ao que
realmente existe.
A tira dialoga, assim, com uma das
ideias centrais de O Pequeno Príncipe: “O essencial é invisível aos olhos.” O
humor nasce justamente da distância entre a aparência e a realidade.
A Metamorfose, de Franz Kafka
Ao colocar a jiboia na cama de Gregor
Samsa, às cinco horas da manhã, Benett recria a cena inicial de A Metamorfose,
de Franz Kafka. Na obra original, Gregor desperta transformado em um inseto
monstruoso. Na tira, porém, a transformação é substituída pela presença da
cobra de O Pequeno Príncipe.
O encontro dessas duas narrativas
produz um humor absurdo, no qual a angústia existencial e a opressão do
trabalho, presentes na obra de Kafka, misturam-se ao surrealismo da fábula de
Saint-Exupéry.
O Corcunda de Notre-Dame
No encontro entre Quasimodo e a
jiboia, Benett explora a semelhança visual entre a corcunda do personagem de
Victor Hugo e o relevo formado pelo elefante no interior da serpente.
A pergunta ingênua de Quasimodo —
“Você também comeu um elefante?” — estabelece uma ponte cômica entre sua
aparência física e o desenho que os adultos confundiam com um chapéu. A graça
nasce do reconhecimento de uma forma semelhante, embora produzida por
circunstâncias completamente diferentes.
O pinguim niilista
Em outra releitura do asteroide
B-612, a raposa, que no livro ensina ao Pequeno Príncipe o significado do
afeto, da amizade e da responsabilidade, é substituída pelo chamado “pinguim
niilista”, popularizado por uma cena do documentário de Werner Herzog.
O tom poético da narrativa original
dá lugar ao niilismo. A procura por vínculos afetivos é confrontada com a
solidão e com a aparente falta de sentido da existência. Benett transforma,
dessa maneira, a delicadeza da obra de Saint-Exupéry em uma reflexão melancólica
sobre a condição humana.
O Pequeno Príncipe e Maquiavel
A imagem do Pequeno Príncipe lendo O
Príncipe, de Nicolau Maquiavel, cria um jogo imediato entre os títulos das duas
obras. O menino que representa a pureza, a sensibilidade e o olhar da infância
aparece diante de um tratado associado ao poder, à estratégia e ao
comportamento dos governantes.
A tira também nos remete ao episódio
de um julgamento no qual um advogado confundiu as autorias das duas obras. A
troca transforma Antoine de Saint-Exupéry e Nicolau Maquiavel em personagens
involuntários de uma situação quase tão absurda quanto as próprias charges de
Benett.
Magritte e “A traição das imagens”
Outra tira estabelece um diálogo com
A traição das imagens (La Trahison des images), obra pintada por René Magritte
em 1929. O quadro apresenta um cachimbo acompanhado da frase: “Ceci n’est pas
une pipe” — “Isto não é um cachimbo”.
Magritte questiona a relação entre a
realidade e sua representação: a figura não é um cachimbo verdadeiro, mas
apenas a imagem de um cachimbo.
Ao lado do quadro, Benett coloca a
silhueta clássica da jiboia que engoliu um elefante. Para os adultos de O
Pequeno Príncipe, aquela forma representava apenas um chapéu. A jiboia, então,
olha para a pintura e declara:
— Eu te entendo. Também não sou o que
as pessoas pensam que sou.
Benett aproxima as duas obras por
meio de uma questão comum: a diferença entre aquilo que uma imagem mostra e
aquilo que o observador acredita estar vendo. Tanto o cachimbo de Magritte
quanto a jiboia de Saint-Exupéry desafiam a interpretação imediata e superficial.
Alice no País das Maravilhas
A presença do Coelho Branco,
personagem de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, acrescenta outra
camada de intertextualidade à cena. Colocado como observador em uma galeria de
arte, o personagem reforça o ambiente de estranhamento, curiosidade e absurdo.
Assim como Alice atravessa um mundo
no qual a lógica convencional deixa de funcionar, o leitor das charges de
Benett é convidado a abandonar as interpretações mais óbvias e a enxergar além
das aparências.
A jiboia e o disfarce conveniente
Em outra situação, Benett brinca com
a própria metáfora criada por Saint-Exupéry. No livro, a afirmação “é apenas um
chapéu” representa a visão limitada dos adultos, incapazes de perceber a
imaginação contida no desenho.
Na charge, entretanto, a jiboia
aproveita essa interpretação equivocada como um disfarce conveniente. Diante do
maior predador, ela tenta esconder que devorou seu filhote, afirmando ser
apenas um chapéu. A antiga incompreensão dos adultos transforma-se, então, em
estratégia de sobrevivência.
Considerações finais
Por meio do humor gráfico e da
combinação de referências, Benett transporta O Pequeno Príncipe para outros
universos literários, artísticos e culturais. Kafka, Victor Hugo, Maquiavel,
Magritte, Lewis Carroll e Werner Herzog passam a dialogar com Saint-Exupéry em
encontros improváveis, mas repletos de significado.
Suas charges preservam elementos reconhecíveis da obra original, ao mesmo tempo que transformam sua poesia e delicadeza em comentários bem-humorados, absurdos e, por vezes, melancólicos sobre as ilusões, os julgamentos superficiais e as limitações do olhar adulto. Em Benett, aquilo que parece apenas uma brincadeira visual revela novas camadas de interpretação — porque uma imagem, como uma pessoa ou uma história, raramente é apenas aquilo que aparenta ser.



Nenhum comentário:
Postar um comentário