segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Outra forma de contar O Pequeno Príncipe

 

Esta é uma reprodução de uma fala coloquial

Todo mundo sofre quando perde alguma pessoa querida, mas poucas pessoas vão sofrer e carregar esse bagulho do mesmo jeito que o meu mano Antoine Saint-Exupéry.

Você provavelmente já leu ou já ouviu falar da história do Pequeno Príncipe. É só um dos livros mais traduzidos e vendidos no mundo inteiro, traduzido em mais de 345 línguas.

Só que a fita é que o autor do livro, Antoine, tinha um problema. Ele nasceu numa família de playboy na França, em 1900, e foi o terceiro filho de cinco. Mas o playboyzinho não ia durar muito tempo. Isso porque, quando ele fez três anos de idade, o pai dele acabou falecendo e deixando a família numa situação financeira horrível.

E aí, de repente, os playboys tiveram que virar quebrada, porque a situação realmente ficou ruim.

E, com 17 anos de idade, ele teve que começar a cuidar do irmão dele, de 15, por conta de uma febre que ele tinha pegado, que chamava febre reumática. E é um bagulho bem sério, chegando ao ponto de o irmão dele falecer nos seus braços.

E o Antoine, nessa época, escreveu que o irmão dele não gritou nem esperneou: ele caiu suavemente, assim como uma árvore jovem cai num jardim.

Guarda essa frase na cabeça, que daqui a pouco ela vai ser importante.

Depois disso, Antoine tentou entrar para a Academia Naval duas vezes, só que ele falhou nas duas. Mas o sonho dele, de verdade, era ser piloto de avião. Desde os 12 anos de idade, ele era encantado com essa parada. E isso foi bem na época em que os Wright Brothers estavam, assim, dominando o voo motorizado.

E ele ficou obcecado com essa parada de voo. Ele queria fazer parte da aeronáutica francesa.

Só que a fita é que o Antoine era loucão na hora de pilotar os bagulhos. Ele gostava de ficar mandando umas manobras radicais que, volta e meia, acabavam em acidentes bem graves com os aviões, chegando ao ponto de ele quase morrer, sem contar toda a destruição que ele fez com os aviões que pilotava.

Então a Força Aérea virou para ele e falou:

— Parceiro, na moralzinha, você é da hora, você é gente fina, pá e pum, mas esse bagulho aí não dá. Você está fora.

Então ele sai da Força Aérea e começa a fazer uns voos postais, entregando cartas entre a África e a América do Sul. E foi nesse momento que ele começou a publicar livros sobre a vivência dele.

Em 1931, ele publicou o livro Voo Noturno, que meio que, sem querer, virou um best-seller do dia para a noite. Sem querer, não, porque ele fez uma obra esperando um resultado, mas ninguém esperava que o bagulho fosse ficar desse tamanho.

Nessa mesma época, ele acabou se casando com uma guria. Só que foi um casamento extremamente turbulento, cheio de problemas, e essa mulher acabou servindo de inspiração para a rosa no Pequeno Príncipe, futuramente.

Só que é aqui que o bagulho começa a ficar sinistro. Porque, se liga: mesmo com os livros dele sendo um sucesso, ele vendendo para caramba, a fita é que ele era viciado em adrenalina. O maluco não conseguia ficar em paz. O que ele queria mesmo da vida era viver uma aventura loucaça.

E, por conta disso, ele e o mecânico dele acabaram tendo um acidente grave num deserto na Líbia. Eles queriam bater o recorde de velocidade indo de Paris até Saigon e, no meio do caminho, o motor deu pane e o avião só caiu.

Agora pensa: os manos não tinham ideia de onde eles estavam, não sabiam se alguém vinha resgatá-los, e eles não tinham o que fazer. A única ração que tinham era, tipo assim, um chocolate, umas frutas e mais uns bagulhos soltos aí.

No quarto dia atravessando o deserto, os caras já estavam passando mal de alucinar, quando, por alguma sorte do destino, encontraram uma caravana de pessoas passando, que acabou salvando a vida deles, dando água para os caras.

Essa experiência acabou virando outro livro, chamado Terra dos Homens, e também uma parte dela virou inspiração para o Pequeno Príncipe, em que um aviador é forçado a pousar no deserto por conta de um problema no motor. E lá ele encontra um menino sozinho e começa a trocar ideia com esse moleque.

Depois disso, ele até resolveu dar uma calmada. Só que aí a parada ficou mais sinistra ainda. Isso porque um líder alemão de bigodinho, que vocês conhecem bem, resolveu assumir o poder e aterrorizar o mundo.

Então, quando o bigodinho resolveu invadir a França, a única solução, já que os caras ganharam essa treta, foi o Antoine fugir para a América do Norte. E foi lá, em Nova York, em 1942, que ele escreveu O Pequeno Príncipe.

Só que, mesmo sendo um dos autores mais aclamados da época, um dos caras mais zica desse rolê todo, ele escrevia por hobby, não era por paixão. O que ele gostava mesmo era de estar no ar, nos aviões, tirando uma onda. E o que ele queria mesmo era entrar no avião de guerra e pilotar contra o bigodinho.

Então ele resolveu chegar no Exército francês e falar:

— Parceiro, na moral, vocês têm que deixar eu participar. O pai está pronto, caralho!

O Exército francês virou para ele:

— Parceiro, você tem 42 anos, você é cheio de lesão, você já bateu não sei quantos aviões. Não vai dar jeito, parceiro. Não tem como você ajudar.

Só que ele encheu tanto o saco dos caras que resolveram abrir uma exceção e deixar ele fazer voos de reconhecimento. Ou seja, ele tinha que voar por terras inimigas, territórios inimigos, e ver o que estava pegando.

E ele começar a pilotar na guerra só aumentou a fama do cara. E, tipo assim, o maluco já era famoso. Chegando ao ponto de, em 1943, o livro dele ser banido na França pelo exército do bigodinho. Calma, que eu já explico o porquê dessa parada.

Mas, se liga: a fita é que, no Pequeno Príncipe, as ilustrações são tão importantes quanto a própria história. Inclusive, quem desenhou tudo foi o próprio Antoine.

Pega a visão: no livro, tanto o Pequeno Príncipe quanto o motorista de avião estão em crise. O piloto vai basicamente morrer se não conseguir consertar o avião e sair de lá. E o Pequeno Príncipe foi obrigado a sair do seu planeta natal por conta de uma treta que ele teve com a rosa.

E, antes de chegar ao planeta Terra, ele vai passando por vários asteroides, ou miniplanetas, e conhecendo personagens de lá. E cada personagem é basicamente uma falha humana.

Por exemplo: nós temos o rei que não tem nenhum súdito para governar. Nós temos um homem bonito que não tem ninguém para elogiar ele. Também temos o bebum que bebe para esquecer que está bebendo. Ou até o empresário que se diz dono de todas as estrelas que consegue ver.

E, é claro, a gente não pode esquecer do geógrafo, que supostamente sabe de tudo, só que nunca recebeu informações confiáveis de exploradores que deviam passar essas informações para ele.

O narrador dessa história é o aviador que cai no deserto. E ele só consegue escapar do seu problema por conta do sacrifício do Pequeno Príncipe.

Isso porque, antes de o Pequeno Príncipe sair do seu planeta natal, ele basicamente arrumou a casa: ele limpou os vulcões e arrancou as raízes das árvores que podiam destruir seu planeta natal.

Inclusive, foi por isso que o livro foi banido, porque essas árvores são vistas por muitas pessoas como uma alusão ao governo do bigodinho. Se você deixar a raiz se alastrar, ela vai dominar o país e vai destruí-lo por completo.

E ele viveu uma vida boa no planeta dele. Só que, por conta de um mal-entendido com a rosa, que é o único personagem feminino do livro inteiro, ele acaba indo para a Terra.

E, chegando à Terra, ele conhece uma raposa muito inteligente, que começa a conversar com ele sobre essa necessidade de nós, seres humanos, termos relacionamentos com outras pessoas. E explica para o Pequeno Príncipe a obrigação que a gente tem com aquilo que cativa. Ou seja, a gente tem obrigação em cima daquilo que quer.

Então a raposa fala para o Pequeno Príncipe, calmamente:

— A gente apenas se esqueceu dessa simples verdade. Você é eternamente responsável por aquilo que cativa. Cada um é responsável por sua própria rosa.

E é nesse momento que o Pequeno Príncipe percebe que a coisa mais valiosa dentro de um relacionamento é justamente a singularidade dele. Porque o que determina o valor de um relacionamento é tudo aquilo que você dedicou e sacrificou por ele.

A jornada do Pequeno Príncipe continua até encontrar um vendedor que vende pílulas que matam sua sede. E o Pequeno Príncipe fica curioso e fala:

— Cara, por que eu preciso de uma pílula para matar minha sede? Por que eu só não tomo um copo d’água?

E o vendedor vira para ele e fala:

— Jovem, jovem, você ainda não sabe muito bem da vida. Você tem que entender mais as coisas. Presta atenção: com a minha pílula, você vai economizar 53 minutos por dia.

E o Pequeno Príncipe fica curioso e pergunta para ele:

— Parceiro, mas o que eu vou fazer com esses 53 minutos que eu tenho a mais?

O vendedor responde para ele, todo seguro:

— Mano, você faz o que quiser. Você pode, sei lá, relaxar, você pode ler um livro.

E aí o Pequeno Príncipe olha com um olhar curioso para ele e fala:

— Cara, se eu tivesse 53 minutos a mais, sabe o que eu ia fazer? Eu acho que ia até um riacho tomar uma água, só pelo rolê.

Isso porque o Pequeno Príncipe vê alegria e felicidade nas coisas simples da vida. Para ele, economizar tempo não faz o menor sentido quando ele pode só ir lá e fazer as coisas.

Então, depois de um tempo, ele e o piloto que encontrou no deserto, algum tempo depois no livro, vão atrás de água e conseguem encontrar, o que acaba salvando a vida do piloto.

E é nesse momento que o Pequeno Príncipe decide que é hora de partir de volta para o seu planeta. Só que ele sabe muito bem que não pode voltar para o planeta dele com seu corpo físico. Então ele negocia sua própria morte e deixa uma cobra morder ele.

E, quando o piloto volta para agradecer ao menino, ele simplesmente não está mais lá.

Agora vamos voltar para aquela frase do começo e vamos ver se você estava prestando atenção. Sabe aquele bagulho que eu falei, que ele escreveu sobre o irmão dele? Ele usou essa mesma frase para descrever a morte do Pequeno Príncipe: que ele não gritou ao cair, ele caiu suavemente como uma árvore jovem num quintal.

E é aí que vem uma das frases mais lindas do livro inteiro e, se pá, da humanidade:

— Um dia, quando a sua tristeza finalmente se acalmar, porque o tempo suaviza todas as dores, você ficará feliz de ter me conhecido.

O livro mostra que não existe nenhum caminho simples para os problemas da vida. Ele aponta justamente para essa tristeza de muitas pessoas que vivem uma vida que não tem sentido.

Tem uma hora em que a raposa vira para o Pequeno Príncipe e fala para ele:

— Ah, as pessoas não têm tempo de entender qualquer coisa que vale a pena. Elas compram tudo em lojas. Por isso que elas não têm amigos, porque não dá para comprar amigo dentro de uma loja.

Esse livro é muito importante, muito impactante, porque faz a gente questionar uma coisa bem simples: será que, na nossa correria de ser adulto e otimizar nosso tempo para tudo, a gente perdeu a essência do que é viver?

Então, no dia 31 de julho de 1944, o Antoine vai em mais uma missão. E, infelizmente, o avião dele caiu em alto-mar.

E, assim como o corpo do Pequeno Príncipe, que nunca mais foi visto, o corpo do Antoine também nunca foi encontrado.

Nas palavras do Pequeno Príncipe:

— Aqui está o meu segredo. O meu segredo é muito simples: só com o coração que a gente consegue enxergar direito. Porque tudo que é essencial para a vida é invisível para os olhos.

E, como sempre, eu sou o Fred Roman. E, se você gostou do vídeo, não esquece de seguir nós. Tamo junto!