terça-feira, 9 de junho de 2026


 

Os livros que nos fazem viajar

 

O Pequeno Príncipe, depois da decepção com sua rosa, resolveu visitar os asteroides próximos ao seu para ocupar-se e instruir-se. Para essa viagem, creio que utilizou a migração de pássaros selvagens para evadir-se de seu pequeno mundo. A ilustração dessa cena no livro é lindíssima.

 

Aproveitando a ideia de Antoine de Saint-Exupéry, tomei a ousadia de reinventar essa imagem. Em vez de pássaros, imaginei o Pequeno Príncipe viajando sobre livros, companheiros silenciosos que também nos levam para longe da realidade cotidiana.

 

Afinal, os livros possuem a mesma magia dos pássaros migratórios: transportam-nos para outros mundos, apresentam-nos novas paisagens, novos pensamentos e novas vidas. Quando desejamos evadir-nos da realidade, não precisamos necessariamente de asas. Muitas vezes, basta abrir um livro.

 

Assim, o Pequeno Príncipe parte novamente em sua jornada, não carregado pelo voo dos pássaros, mas pela força das histórias. Sobre as páginas de Os Miseráveis, A Divina Comédia e tantos outros clássicos, ele continua sua eterna busca por atividade, conhecimento e encantamento.

 

Porque há viagens que se fazem com os pés, outras com asas, e algumas das mais extraordinárias com livros.


 

Capítulo XXI – A Raposa e o Segredo da Amizade

— “Vem brincar comigo. Estou tão triste.”

O convite feito pelo principezinho à raposa parece simples, mas inaugura uma das mais profundas reflexões sobre a amizade na literatura.

A resposta da raposa é uma negativa:

— “Não posso brincar contigo. Não me cativaram ainda.”

É justamente dessa recusa que nasce o ensinamento. A raposa apresenta ao pequeno príncipe a importância dos laços construídos com paciência, presença e dedicação. Ninguém se torna amigo de alguém instantaneamente. É preciso tempo para criar vínculos, para transformar o outro em alguém único no mundo.

Um detalhe curioso do capítulo é que a raposa aparece sob uma macieira. Na tradição bíblica, a maçã costuma ser associada à árvore do conhecimento. Não deixa de ser simbólico que seja ali, naquele cenário, que o pequeno príncipe receba uma das maiores lições de sua viagem.

Ao compreender o significado de “cativar”, ele descobre que os laços criam responsabilidades. Por isso, a raposa lhe revela uma das frases mais marcantes do livro:

"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas."

Mais do que uma lição sobre amizade, essa frase fala de amor, cuidado e compromisso. As pessoas que entram em nossa vida e que conquistam nosso coração deixam de ser apenas mais uma entre tantas. Tornam-se únicas. E a partir desse momento passamos a carregar, com alegria e responsabilidade, uma parte de sua história junto da nossa.

É um dos capítulos em que Antoine de Saint-Exupéry concentra, em poucas páginas, a essência de toda a obra: a descoberta de que o verdadeiro valor das coisas nasce dos laços que construímos.


 

Mais uma curiosidade sobre O Pequeno Príncipe

 

Quando se diz que a literatura liberta, normalmente pensamos no poder dos livros de ampliar horizontes e transformar vidas. Em alguns casos, porém, ela também chega aos tribunais.

No Brasil, a leitura pode contribuir para a redução da pena de pessoas privadas de liberdade. Mas uma notícia vinda da Argentina mostrou uma situação curiosa: a leitura de O Pequeno Príncipe transformou-se em uma determinação judicial.

A juíza Carolina Macarrein, titular do Juizado de Família, Infância e Adolescência nº 4 de Corrientes, determinou que um pai lesse a obra de Antoine de Saint-Exupéry para refletir sobre a importância da empatia e da responsabilidade paterna. Além de negar o pedido apresentado pelo homem, a magistrada marcou uma nova audiência para que ele relatasse as conclusões que tirou da leitura.

O pai havia solicitado a interrupção da pensão alimentícia destinada à filha de 21 anos, alegando que o Certificado Único de Deficiência da jovem estava vencido. A juíza entendeu que o argumento demonstrava uma preocupante falta de empatia em relação aos filhos, um deles com deficiência e outro enfrentando problemas de saúde.

 

Em entrevista à jornalista María Mercedes Vázquez, da rádio Corrientes no ar, Macarrein classificou as declarações do pai como lamentáveis:

“Se este senhor diz isso a um juiz, o que dirá à pobre mulher e aos seus filhos? Não é assim que a coisa funciona; essa conduta é reprovável.”

Para a magistrada, a leitura de O Pequeno Príncipe poderia ajudá-lo a compreender melhor o significado da empatia.

Na decisão, ela destacou que ser pai não se resume ao cumprimento de uma obrigação financeira. A paternidade também envolve presença, compreensão, cuidado e apoio emocional, sobretudo quando os filhos se encontram em situação de vulnerabilidade.

Embora o livro não trate diretamente da relação entre pais e filhos, seus ensinamentos abordam valores universais como amor, amizade, responsabilidade e respeito ao próximo. Por isso, a juíza considerou que a obra poderia servir como instrumento de reflexão.

Segundo ela:

“Neste caso, entendi que as obrigações parentais não se cumprem apenas com dinheiro, mas também com amor, compreensão e presença. Por isso determinei que o pai leia o livro: para que se lembre de que ‘o essencial é invisível aos olhos’ e que o essencial para seus filhos é seu cuidado e afeto.”

 

Na semana seguinte, o homem deveria retornar ao tribunal para comentar o que havia aprendido com a leitura.

Curiosamente, aquilo que para milhões de leitores representa um convite à imaginação e à sensibilidade tornou-se, nesse caso, uma tarefa determinada pela Justiça. Talvez porque poucos livros expressem tão bem a ideia de responsabilidade quanto a famosa lição da raposa ao Pequeno Príncipe:

"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas."

Uma frase que continua atravessando gerações — e, pelo visto, até mesmo processos judiciais.


 

O Pequeno Príncipe: o livro das misses

 

Nos anos 1950 e 1960, era impressionante a audiência que o concurso Miss Brasil alcançava. A antiga TV Tupi transmitia o evento ao vivo para todo o país. As candidatas desfilavam em traje típico, traje de gala e maiô — este último, sem dúvida, o momento mais aguardado pelo público.

 

A vencedora estampava a capa da revista O Cruzeiro e passava a ocupar lugar de destaque no imaginário dos brasileiros. Algumas misses ficaram para sempre na memória popular como símbolos da beleza feminina do país. Lembro-me de nomes como Martha Rocha, Ieda Maria Vargas, Vera Fischer e Stael Abelha.

 

Além dos desfiles, havia também a entrevista, na qual diversas perguntas eram dirigidas às candidatas. Entre elas, uma era quase obrigatória: qual o livro que haviam lido e de que mais gostaram.

 

Curiosamente, o título mais citado era O Pequeno Príncipe. Por isso, durante muito tempo, quando alguém mencionava O Pequeno Príncipe, era comum ouvir a expressão: “o livro das misses”.

 

Talvez essa associação tenha contribuído para ampliar ainda mais a popularidade da obra entre os leitores brasileiros, transformando-a em um verdadeiro clássico presente nas estantes, nos colégios e na memória afetiva de várias gerações.

domingo, 16 de novembro de 2025

A Obra que se traduz ao Mundo

 

O Pequeno Príncipe: A Obra que se traduz ao Mundo

 

José Marcos Ramos

 

Há livros que viajam mais longe do que seus autores jamais poderiam imaginar. O Pequeno Príncipe, publicado em 1943, nasceu bilíngue — francês e inglês —, mas talvez nem mesmo Saint-Exupéry suspeitasse que sua criação se tornaria um dos livros mais traduzidos do planeta. A ponto de ocupar, entre as obras literárias, um lugar singular: nenhum outro título ficcional atravessou tantas fronteiras linguísticas quanto ele.

 

Costuma-se dizer que os três livros mais traduzidos do mundo são a Bíblia, o Alcorão e O Pequeno Príncipe. Os dois primeiros são textos religiosos e fundadores; já o terceiro é um pequeno relato poético, de aparência infantil, mas dotado de um alcance simbólico que fala à humanidade inteira. É justamente aí que reside o seu mistério: por que um livro tão breve, escrito em plena guerra, alcança tamanha universalidade?

 

Talvez porque, ao contrário dos tratados filosóficos e dos romances monumentais, O Pequeno Príncipe se dirige ao núcleo essencial da condição humana: o desejo de sentido, a preservação da imaginação, a simplicidade que o mundo adulto insiste em abandonar. Cada tradução não é apenas a passagem de palavras de uma língua para outra — é uma transmissão de sensibilidade.

 

A tradução como gesto de permanência

 

O fato de a obra já ultrapassar quatrocentas traduções não é simples curiosidade estatística. É indício de que ela foi adotada, apropriada e reinventada por culturas as mais diversas. As traduções não são uníssonas: cada idioma oferece ao texto um novo brilho, um novo sotaque afetivo.

 

No Brasil, a primeira versão apareceu em 1952, por Dom Marcos Barbosa, monge beneditino mineiro. A escolha não foi casual. Um tradutor que também era poeta sabia que o essencial do livro não estava apenas no sentido literal das frases, mas na cadência, na delicadeza, no silêncio entre as palavras.

O Pequeno Príncipe brasileiro, assim, nasceu sob mãos que compreendiam tanto a espiritualidade quanto a poesia — dimensões inseparáveis da obra.

 

As línguas que resistem, mesmo quando morrem

 

Há algo de profundamente simbólico no fato de O Pequeno Príncipe ser traduzido também para línguas mortas. Latim, grego antigo, sânscrito, egípcio, alemão antigo, francês antigo: idiomas que já não ecoam nas ruas, mas sobrevivem na memória escrita.

 

Traduzir um livro moderno para uma língua extinta é um gesto de arqueologia literária, mas também de preservação. É como se cada tradução dissesse:

“Mesmo aquilo que o tempo silenciou ainda pode acolher a beleza.”

 

O mesmo ocorre com dialetos regionais. Muitas escolas adotam edições do livro para manter viva a fala dos avós, das aldeias, dos vales. A obra, que nasceu em meio ao ruído da Segunda Guerra, torna-se assim instrumento de continuidade cultural.

 

Traduções que brincam com o possível

 

Se a obra fala ao coração, ela também desperta o jogo. Algumas traduções beiram o experimentalismo: uma edição espelhada, legível apenas diante do espelho; outra turca, na qual cada cor corresponde a uma letra; outra ainda depende de celular para ser decodificada.

E há, claro, a tradução para o klingon — a primeira língua não humana criada pelo imaginário da ficção científica.

É como se o livro confirmasse sua própria mensagem: o essencial só se vê com o coração, mas a imaginação também exige seus brinquedos.

 

Saint-Exupéry: o homem que escreveu o voo

 

Para compreender o alcance de seu livro, é preciso lembrar de seu autor. Antoine de Saint-Exupéry não era apenas escritor: era aviador, repórter, pioneiro de rotas aéreas que conectaram continentes. Viveu entre o risco e a contemplação, entre o céu e a palavra.

Sua morte, em 1944, em missão de reconhecimento, sela a imagem de um autor em permanente travessia — física e espiritual.

 

Talvez por isso O Pequeno Príncipe fale tanto ao sentimento humano de exílio, de busca, de viagem interior. O menino que vem de um asteroide distante é, de certo modo, a figura do viajante eterno que Saint-Exupéry sempre foi.

 

Por que seguimos traduzindo?

 

A pergunta permanece: por que traduzir tantas vezes um livro já conhecido? Porque cada época lê O Pequeno Príncipe à sua maneira. Porque cada língua oferece uma nuance diferente do afeto.

E, sobretudo, porque a obra se tornou uma espécie de espelho da humanidade — um lugar onde adultos reencontram a criança perdida e onde crianças descobrem a profundidade do que ainda não sabem nomear.

 

Traduzir O Pequeno Príncipe é, em última instância, traduzir a si próprio.

 

Eu, colecionador de suas edições, testemunho isso:

cada livro, vindo de canto remoto do mundo, parece dizer a mesma frase com nova ternura.

E é essa multiplicidade que mantém a obra viva.

Não apenas como literatura, mas como experiência.

sábado, 13 de abril de 2024

O Pequeno Príncipe

Ele chegou de mansinho

Pedindo para desenhar um carneiro

Era só o que queria

 

Como tinha muitas histórias.

Foi contando devagarinho

Falou do seu asteroide

 

Sem esquecer dos três vulcões

E também dos baobás

 

Falou da sua rosa

E do amor

Que surgiu de um botão

 

Do desgosto que sempre há

Nos casos de amor

 

Falou das suas viagens

Dos asteroides que conheceu

Estava procurando amigos

 

Nem o Rei

Nem o vaidoso

Muito menos o beberão

Seus amigos se tornaram

 

O home de negócio nem pensar

O acendedor de lampião

Podia até ser

Devido ao pôr do sol

 

No planeta Terra, ele se encontrou

Finalmente um amigo

A raposa cativou

Ensinando as lições

Que ele também me ensinou

 

Foi assim que conheci

Há 81 anos

O menino que me cativou


José Marcos Ramos