terça-feira, 9 de junho de 2026


 

Mais uma curiosidade sobre O Pequeno Príncipe

 

Quando se diz que a literatura liberta, normalmente pensamos no poder dos livros de ampliar horizontes e transformar vidas. Em alguns casos, porém, ela também chega aos tribunais.

No Brasil, a leitura pode contribuir para a redução da pena de pessoas privadas de liberdade. Mas uma notícia vinda da Argentina mostrou uma situação curiosa: a leitura de O Pequeno Príncipe transformou-se em uma determinação judicial.

A juíza Carolina Macarrein, titular do Juizado de Família, Infância e Adolescência nº 4 de Corrientes, determinou que um pai lesse a obra de Antoine de Saint-Exupéry para refletir sobre a importância da empatia e da responsabilidade paterna. Além de negar o pedido apresentado pelo homem, a magistrada marcou uma nova audiência para que ele relatasse as conclusões que tirou da leitura.

O pai havia solicitado a interrupção da pensão alimentícia destinada à filha de 21 anos, alegando que o Certificado Único de Deficiência da jovem estava vencido. A juíza entendeu que o argumento demonstrava uma preocupante falta de empatia em relação aos filhos, um deles com deficiência e outro enfrentando problemas de saúde.

 

Em entrevista à jornalista María Mercedes Vázquez, da rádio Corrientes no ar, Macarrein classificou as declarações do pai como lamentáveis:

“Se este senhor diz isso a um juiz, o que dirá à pobre mulher e aos seus filhos? Não é assim que a coisa funciona; essa conduta é reprovável.”

Para a magistrada, a leitura de O Pequeno Príncipe poderia ajudá-lo a compreender melhor o significado da empatia.

Na decisão, ela destacou que ser pai não se resume ao cumprimento de uma obrigação financeira. A paternidade também envolve presença, compreensão, cuidado e apoio emocional, sobretudo quando os filhos se encontram em situação de vulnerabilidade.

Embora o livro não trate diretamente da relação entre pais e filhos, seus ensinamentos abordam valores universais como amor, amizade, responsabilidade e respeito ao próximo. Por isso, a juíza considerou que a obra poderia servir como instrumento de reflexão.

Segundo ela:

“Neste caso, entendi que as obrigações parentais não se cumprem apenas com dinheiro, mas também com amor, compreensão e presença. Por isso determinei que o pai leia o livro: para que se lembre de que ‘o essencial é invisível aos olhos’ e que o essencial para seus filhos é seu cuidado e afeto.”

 

Na semana seguinte, o homem deveria retornar ao tribunal para comentar o que havia aprendido com a leitura.

Curiosamente, aquilo que para milhões de leitores representa um convite à imaginação e à sensibilidade tornou-se, nesse caso, uma tarefa determinada pela Justiça. Talvez porque poucos livros expressem tão bem a ideia de responsabilidade quanto a famosa lição da raposa ao Pequeno Príncipe:

"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas."

Uma frase que continua atravessando gerações — e, pelo visto, até mesmo processos judiciais.

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