sexta-feira, 12 de junho de 2026


 

O Pequeno Príncipe no país do futebol

 José Marcos Ramos

 Imagino o Pequeno Príncipe desembarcando no Brasil num domingo de campeonato. Ele, acostumado a vulcões, baobás e ao silêncio do deserto, certamente estranharia o barulho. Não entenderia por que pessoas desconhecidas se abraçam de repente, por que alguém grita sozinho diante da televisão ou por que um ônibus inteiro prende a respiração ao redor de um pequeno rádio de pilha.

 

No começo, talvez pensasse que se trata de um ritual muito sério dos adultos. Afinal, os adultos gostam de números: quantos gols, quantos pontos, quantos títulos, quantos minutos faltam para o fim do jogo.

 

Mas bastaria observar um pouco mais para perceber que, no Brasil, o futebol é uma brincadeira que se recusa a envelhecer.

 

Às vezes, a bola rebola junto com o corpo do jogador que dribla um, dois ou três adversários antes do gol. Então acontece o milagre: o estádio sacode, a sala de casa vira arquibancada, o ônibus inteiro se transforma em torcida. O grito explode ao mesmo tempo em milhares de gargantas:

 

— Gol!

 

O Pequeno Príncipe talvez sorrisse. Veria meninos jogando na rua com traves improvisadas por chinelos, pais ensinando filhos a chutar com o lado do pé, avós encostando o radinho no ouvido para ouvir uma narração que transforma cada lance em epopeia.

 

A raposa lhe havia ensinado que somos responsáveis por aquilo que cativamos. Talvez seja por isso que tanta gente sofra e comemore por um time de futebol. Não é apenas a vitória que está em jogo. São as lembranças. O primeiro jogo no estádio. A camisa herdada do pai. A fotografia amarelada de um antigo craque. A infância inteira correndo atrás de uma bola.

 

No fim da partida, segurando a bola nas mãos e olhando para aquele povo capaz de transformar um simples jogo numa celebração coletiva, o Pequeno Príncipe diria, com espanto e alegria:

 

— Brasil! Brasil!

 

E descobriria que, no país do futebol, o essencial nem sempre é invisível aos olhos. Às vezes, ele rola pelo gramado, redondo como um pequeno planeta, convidando os adultos a brincar mais uma vez.

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